Um dos alvos da Operação Crédito Oculto, terceira fase da Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24), é Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. Dono do Grupo Entre, ele fechou no início do mês um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República no caso Banco Master. A ordem de busca, obtida pelo Bastidor, é do juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2ª Vara Criminal de Catanduva, assinada em 2 de setembro.

Na peça em que pediu as buscas, o Ministério Público de São Paulo descreve o Grupo Entre, de Freixo Júnior, como prestador de serviços de lavagem de dinheiro para Mohamad Hussein e Roberto Augusto Leme Silva, o Beto Louco, que os promotores apontam como líderes de uma organização criminosa no setor de combustíveis.

Os dois são donos da Copape e da distribuidora Aster, alvos centrais da primeira fase da Carbono Oculto, em agosto de 2025, por ligação com o PCC, Primeiro Comando da Capital. O juiz considerou haver, “com folga”, indícios suficientes de organização criminosa e lavagem de dinheiro para autorizar as buscas.

Segundo o Ministério Público, a Entre aparece na compra da Terrana, distribuidora que Beto Louco e Primo adquiriram por meio de fundos e de empresas registradas em nome de um intermediário. O dinheiro da compra saiu do fundo Radford, cuja única cotista é a Usina Itajobi. A usina foi comprada por meio do fundo Celebration e transferida formalmente ao Grupo Entre. Entre 24 e 26 de julho de 2024, a Itajobi repassou ao Radford cerca de 100 milhões de reais em quatro transferências. Minutos antes de cada uma, a usina havia recebido o mesmo valor da Duvale, que o recebera da SM Serviços Empresariais, financiada pela Aster no período.

Em 10 de dezembro de 2024, a Entre Investimentos depositou 20 milhões de reais numa conta da usina na Credihome, sociedade de crédito do próprio Grupo Entre. No dia seguinte, a Branson Holdings emitiu a cédula de crédito usada na compra. Os 20 milhões seguiram inteiros para o Radford. O juiz chama a conta de “típica conta de passagem”.

Em 16 de abril de 2025, o Bastidor publicou que o comando da Copape estava por trás da compra da Terrana pela Branson Holdings, de Paulo Narcélio. As mensagens extraídas do celular de Narcélio, reproduzidas na decisão, confirmam a informação.

Segundo as mensagens, Primo tomava as decisões e a negociação seguia a orientação do advogado Rogério Garcia Peres. Narcélio foi contratado com comissão de 0,75% sobre o negócio para, nas palavras dele, “manter a imagem de que a empresa foi comprada por mim”. Gustavo Nascimento de Oliveira, apresentado na época como novo presidente da distribuidora, atuava como CEO e porta-voz do grupo. Os funcionários levados à Terrana eram pagos pela 7Seven, empresa aberta em janeiro de 2025 com capital de mil reais. Para o Ministério Público, a 7Seven era uma empresa de fachada.

O Banco Genial administrava o Radford desde agosto de 2024. Uma semana depois da primeira fase da Carbono Oculto, em setembro de 2025, deixou a administração do fundo. Em nota, o banco disse desconhecer qualquer ilegalidade, afirmou ter seguido as normas de compliance e atribuiu a estruturação do Radford a outros prestadores de serviços, sem dizer quais.

Segundo a decisão da operação deflagrada hoje, foi a gestora Altinvest, de Garcia Peres, que permaneceu como cogestora do fundo. O despacho registra também que o compliance do banco identificou que Freixo Júnior e a Entre Investimentos haviam sido responsabilizados pela Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, e que o banco ainda assim prosseguiu. Ao sair, o Genial liquidou os certificados ligados à compra e cedeu ao próprio Radford os créditos das cédulas.

Humberto Arthur Tupinambá Neto, sócio e ex-diretor do Genial, também é alvo das buscas. De acordo com a decisão, ele apagou as conversas com Narcélio depois que a cédula da Branson foi quitada com dinheiro vindo diretamente da Aster.

Garcia Peres também é alvo. Segundo a decisão, o escritório dele abriu a Berna e a Branson, as duas empresas em nome de Narcélio usadas na compra. Da conta pessoal do advogado saiu cerca de meio bilhão de reais para a EntrePay, empresa do grupo de Freixo Júnior. O valor é quatro vezes o patrimônio que ele declarou.

Os relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, citados na decisão, registram Freixo Júnior como ganhador em 570 comunicações de prêmios e apostas entre 2020 e 2025. Elas somam 176,5 milhões de reais. Os relatórios registram ainda 1,67 bilhão de reais em operações imobiliárias comunicadas. Comunicação ao Coaf não indica irregularidade por si só. O juiz usa os dados como parte dos indícios contra o grupo.

A Entre Investimentos enviou 187,9 milhões de reais à Arka Distribuidora e é cotista do Rover FIDC, fundo cujos ativos são notas comerciais de empresas atribuídas a Beto Louco e Primo. Duas outras empresas do Grupo Entre, a Logics4u e a Pmovil, movimentaram mais de 1,2 bilhão de reais e mais de 200 milhões de reais, respectivamente.

A decisão autorizou buscas na casa de Freixo Júnior, no Jardim Paulista, e no escritório da EntrePay, no Itaim Bibi. Autorizou também o acesso aos dados de 11 empresas do Grupo Entre por meio do liquidante Cassio Haig Vartanian. Parte do grupo está em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 27 de março.

Em janeiro, Freixo Júnior foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master. Para a Polícia Federal, a Entre funcionava como braço operacional de repasses ordenados por Daniel Vorcaro. Foi por ela que saíram mais de 60 milhões de reais para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, que financiou o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

O Bastidor entrou em contato com a defesa de Mineiro. O advogado Marco Petrelluzzi não retornou.