O Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (24) a terceira fase da operação Carbono Oculto, que investiga fraudes no setor de combustíveis. O foco são pessoas e empresas envolvidas na compra da distribuidora de combustíveis Terrana, em 2024, por Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme Silva, o Beto Louco, donos da Copape.
A investigação confirma o que o Bastidor mostrou na ocasião, que a Copape estava por trás do negócio. De acordo com o MP, a compra foi fraudulenta e feita por meio de fundos de investimento constituídos em nome de laranjas.
A decisão que autorizou as buscas, à qual o Bastidor teve acesso, foi assinada em 2 de setembro pelo juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2ª Vara Criminal de Catanduva, no interior paulista. O Ministério Público investiga lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Entre os alvos de busca estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, sócio e ex-diretor do Banco Genial, instituição que emitiu os títulos usados para financiar a compra pelas empresas; os irmãos dele, André e Bruno Tupinambá; e o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos.
O Ministério Público aponta Humberto como integrante do núcleo financeiro do esquema. Em setembro, Mineiro fechou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República na investigação sobre o Banco Master. O acordo foi homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A investigação se concentra na compra da Terrana. Na ocasião, a Copape havia sido proibida de operar pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Como mostrou o Bastidor em abril de 2025, pessoas do setor de combustíveis afirmavam que a Copape era a verdadeira compradora. Oficialmente, a compradora era a Branson Holdings, agora apontada como empresa de fachada do grupo da Copape.
A operação desta quinta-feira confirma que a compra foi de fachada, uma forma de os donos da Copape driblarem a interdição pelas autoridades. De acordo com a investigação, o dinheiro fez o seguinte caminho: a Usina Itajobi, de Mohamad, dono da Copape, e de Beto Louco, seu parceiro de negócios, transferiu pouco mais de 100 milhões de reais para o fundo Radford em quatro operações. Fez isso minutos depois de receber o mesmo valor da Duvale, que tinha recebido o dinheiro de uma empresa chamada SM Serviços, financiada pela Aster Petróleo, que pertence a Mohamad.
O dinheiro passou por contas-bolsão da fintech BK Bank, investigada sob suspeita de lavar dinheiro para postos de combustíveis ligados ao PCC, o Primeiro Comando da Capital. Em dezembro de 2024, a Entre Investimentos depositou 20 milhões de reais numa conta da Usina Itajobi na Credihome, instituição do Grupo Entre. Segundo a decisão, o depósito se destinava à compra da Terrana. O valor foi repassado integralmente ao fundo Radford.
No papel, a Terrana foi comprada pela Berna Holdings e pela Branson Holdings. As duas empresas foram abertas pouco antes, em 4 de setembro de 2024, com capital social de mil reais cada, em nome de Paulo Narcélio Simões do Amaral, apontado como laranja do grupo Copape.
O Radford aplicou seus recursos em certificados de depósito bancário vinculados, emitidos pelo Banco Genial. São títulos cujo pagamento fica condicionado ao pagamento de empréstimos concedidos pelo banco. Nesse caso, os empréstimos eram duas cédulas de crédito bancário: uma de 60,5 milhões de reais, emitida pela Berna em 4 de outubro de 2024, e outra de 99,9 milhões de reais, emitida pela Branson em 11 de dezembro de 2024. Com esse dinheiro, as duas empresas compraram o fundo Derby 44, hoje chamado Wels, e a Tramp Oil, hoje Branson Oil, controladora da Terrana. Para o Ministério Público, portanto, o dinheiro emprestado às duas empresas pertencia, na origem, ao próprio Radford.
Os imóveis que a Berna deu em garantia pertencem ao fundo Los Angeles. A investigação aponta como beneficiário final do fundo Himad Abdallah Mourad, primo de Mohamad. Ainda segundo o Ministério Público, a origem do patrimônio do fundo está ligada à VM Administração de Bens Próprios, de Silvana Correa, mulher de Mohamad.
O Ministério Público encontrou detalhes da negociação em mensagens extraídas do celular apreendido de Paulo Narcélio, apontado como laranja no esquema. Nos diálogos, ele afirma ter sido contratado por uma comissão de 0,75% sobre o valor do negócio, mais três meses de salário como gestor interino, para “manter a imagem de que a empresa foi comprada por mim”.
Depois da compra, segundo a investigação, Mohamad passou a dar instruções à nova diretoria da Terrana num grupo de WhatsApp criado em 18 de dezembro de 2024. Ele usava uma linha identificada como “Leo”. No período, as empresas AT Assessoria e BT Assessoria, de André e Bruno Tupinambá, respectivamente, receberam mais de 450 mil reais cada da Aster Petróleo.
Depois da primeira fase da operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, o Banco Genial deixou a administração do Radford, liquidou os certificados e cedeu ao fundo os créditos das cédulas. Com isso, o fundo da Usina Itajobi passou a ser credor direto das empresas abertas em nome de Amaral. Mohamad e Beto Louco estão foragidos desde agosto do ano passado.
Procuradas pela manhã desta quinta-feira, as defesas de Mohamad, Beto Louco e Mineiro não se manifestaram. A reportagem não localizou os advogados de Humberto, André e Bruno Tupinambá.