Uma decisão do juiz André Barbosa Guanaes Simões, da 1ª Vara Cível de Campo Verde (MT), impôs a primeira grande derrota ao grupo Fource no processo de recuperação judicial do grupo Pupin, um dos maiores em tramitação no Mato Grosso, com dívidas superiores a 1 bilhão de reais.
O juiz anulou a assembleia de credores que aprovou o aditivo ao plano de recuperação judicial que alterava as regras de pagamento das dívidas e consolidava operações envolvendo empresas ligadas ao grupo Fource.
Na prática, o aditivo incoporava ao processo uma série de contratos firmados entre o grupo agrícola e empresas ligadas à Fource. O arranjo previa, por exemplo, a reorganização dos ativos do grupo, a possibilidade de venda de propriedades rurais por meio de Unidades Produtivas Isoladas e a participação de empresas ligadas à Fource na gestão das companhias em recuperação.
Segundo os recuperandos, a estrutura permitiu que representantes do investidor assumissem poderes amplos sobre a administração e negociações do grupo, ao mesmo tempo em que participavam das assembleias de credores responsáveis por aprovar as mudanças no plano de pagamento das dívidas.
Como mostrou o Bastidor em setembro do ano passado, o empresário José Pupin, do ramo de algodão, denunciou à Justiça fraudes na administração das suas empresas por parte da Fource. Ele disse que o negócio feito com a Fource “serviria para resolver o estoque de dívida e, consequentemente, o seu problema de caixa”. Com o passar do tempo, contudo, “ativos passaram a ser onerados” e o destino dos recursos “deixou de ser revelado”.
Ele acusa ainda empresas ligadas à Fource de terem assumido controle sobre ativos e decisões da sua empresa durante a recuperação e de terem ampliado sua influência entre os credores, o que teria permitido aprovar mudanças no plano de pagamento das dívidas.
No despacho, o juiz considerou as acusações. Disse ter identificado conflito de interesse na atuação da Fource. A decisão cita que representantes ligados à Fource, que figuravam como credores no processo, receberam procuração com poderes amplos para administrar as empresas do grupo Pupin. Ao mesmo tempo, participaram da assembleia de credores e votaram na aprovação do plano de recuperação.
Para o juiz, essa dupla posição comprometeu a regularidade da deliberação. De acordo com a decisão, a atuação simultânea como administradores de fato das empresas e como credores com direito a voto criou uma situação de conflito que pode ter influenciado o resultado da assembleia.
O magistrado determinou o envio de peças do processo à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para investigação de possíveis irregularidades na condução da recuperação judicial. Isso porque, como revelou o Bastidor em maio de 2025, o grupo Fource apareceu em relatório da PF no esquema de comércio de decisões judiciais no Superior Tribunal de Justiça e em tribunais estaduais, no contexto da Operação Sisamnes.
As investigações da PF abriram uma nova frente de apuração sobre operadores que atuam majoritariamente em processos de recuperação judicial.
Um dos focos é justamente a Fource, comandada por Valdoir Slapak, Heraldo dos Reis e Haroldo Filho. A investigação aponta que Valdoir, por meio da Fource, era parceiro do advogado Roberto Zampieri no esquema de compra e venda de decisões judiciais no Mato Grosso. Zampieri é o advogado que foi assassinado em dezembro de 2023, e cujos dados do celular deram início ao inquérito que chegou ao Supremo.
Em nota, a Fource diz reafirmar “a absoluta legalidade de sua atuação no âmbito da recuperação judicial mencionada pela reportagem.” Acrescenta que “a empresa sempre conduziu seus trabalhos com credibilidade, profissionalismo, estrita observância à legislação vigente, às decisões judiciais e aos princípios de transparência e boa-fé, colaborando integralmente com as autoridades competentes”. Afirma ainda que “cabe sempre destacar que o lado interessado está totalmente equivocado e tem buscado inverter os fatos. Trata-se de um grupo que, por vários anos, descumpriu obrigações e deixou de pagar seus credores, motivo pelo qual não tem legitimidade para questionar a atuação da Fource”.
Leia o despacho:

