No último mês, dois servidores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desembarcaram em Nova York para participar de uma série de reuniões marcadas por um escritório de advocacia privado. O roteiro incluía bancos e grandes firmas de Direito. Era um tour corporativo montado por quem não trabalha na CVM e que, ao menos oficialmente, não aparece registrado na agenda pública dos servidores.

A viagem foi aprovada pelo então presidente interino da CVM, Otto Lobo, e custou 59 mil reais aos cofres públicos. Documentos obtidos pelo Bastidor mostram que o roteiro foi enviado pelo Machado Meyer Advogados para ser cumprido pelo superintendente de Supervisão de Investidores Institucionais, Marco Velloso, e pelo gerente de Acompanhamento de Fundos, Celso Luís Zini Lins, entre os dias 16 e 22 de dezembro, nos Estados Unidos.

A superintendência comandada por Velloso é uma área central na CVM. Cabe a ela registrar, supervisionar e eventualmente sancionar fundos de investimento, administradores de carteiras, consultores e analistas do mercado. Lins, por sua vez, chefia a divisão da superintendência que acompanha e fiscaliza os fundos de investimento, com exceção daqueles ligados à securitização ou ao setor imobiliário.

A agenda enviada aos servidores pelo Machado Meyer, escritório que atua em processos na CVM, previa reuniões com quatro instituições financeiras (Bank of New York, UBS Securities, BTG Securities e J.P. Morgan) e quatro escritórios internacionais (Hogan Lovells, Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, Proskauer Rose e A&O Shearman). Em nota enviada à reportagem, o escritório diz que apenas compartilhou contatos e não participou dos encontros (leia mais abaixo).

Segundo um servidor da CVM em cargo de chefia ouvido pelo Bastidor, a viagem causou estranheza em parte do corpo técnico, principalmente pela ausência de divulgação de qualquer ação institucional que a justificasse. A presença do BTG Securities no roteiro também chamou a atenção, visto que as principais decisões do conglomerado de André Esteves são tomadas na Faria Lima – e não nos Estados Unidos.

A aprovação da viagem foi rápida e pouco transparente. Na tarde de 8 de dezembro, o advogado Gustavo Rugani, sócio do Machado Meyer e especialista em mercado de capitais, enviou um e-mail a Otto Lobo, Velloso e Lins detalhando a agenda de reuniões preparada pelo escritório em Nova York.

No dia seguinte, a CVM abriu o processo nº 19957.017871/2025-58 para formalizar o afastamento dos servidores do país. O documento, no entanto, não identifica os interessados nem esclarece a origem da agenda. Em 11 de dezembro, um despacho assinado por Lobo foi publicado no Diário Oficial autorizando a viagem “a fim de participarem de reuniões com investidores institucionais CVM-NY/USA”.

Na tarde de 12 de dezembro, foram compradas as passagens aéreas e reservada a hospedagem. No Portal da Transparência, as viagens aparecem classificadas como “urgentes”, sob a justificativa de “reuniões agendadas recentemente”. Velloso e Lins permaneceram fora do país entre 14 e 23 de dezembro. Descontados os dias de ida e volta, tiveram três dias de reuniões organizadas pelo Machado Meyer e três dias livres em Nova York.

A agenda eletrônica de Velloso no sistema do Poder Executivo Federal registra apenas o período da viagem, sem detalhar compromissos realizados no exterior. No caso de Lins, não há qualquer agenda disponível no sistema. Nem os servidores, nem o escritório, nem a CVM divulgaram, em canais oficiais, a lista de encontros realizados ou os assuntos tratados nas reuniões.

Em novembro passado, Velloso também esteve em Nova York. Desta vez, ao lado de Otto Lobo, de quem é aliado, e do diretor João Accioly, numa viagem descrita internamente como um “roadshow de inovação” nos Estados Unidos. A agenda não foi divulgada. Além disso, a viagem gerou críticas entre servidores da autarquia, que avaliam não ser papel do regulador “vender o Brasil” a investidores estrangeiros.

Na tarde de quinta-feira (15), o Bastidor questionou a CVM, Velloso e Lins sobre por que a agenda foi elaborada por um escritório privado. Também perguntou quais eram os objetivos e os temas das reuniões, por que a viagem foi classificada como “urgente” e se há registros oficiais dos encontros, como relatórios, atas ou memorandos. Em nota, a autarquia não respondeu aos questionamentos e limitou-se a informar que dados sobre movimentações e despesas de servidores da CVM podem ser consultados no Portal da Transparência. Os servidores não se pronunciaram.

A reportagem também procurou o Machado Meyer e o sócio Gustavo Rugani para esclarecer em que contexto a agenda foi preparada, se o escritório representa clientes com interesse direto nos temas discutidos e se houve participação ou algum desdobramento institucional após as reuniões.

Em nota, o escritório afirmou que a interlocução se limitou ao compartilhamento de contatos para potenciais reuniões técnicas em Nova York. Disse ainda que não participou dos encontros, não definiu o conteúdo das discussões e não representou interesses de clientes específicos nessas ocasiões.

Otto Lobo, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para presidir a CVM, disse por mensagem de texto que o caso está sendo tratado pela assessoria da autarquia e orientou a reportagem a tratar do tema diretamente com a CVM.