Em resposta ao escândalo do Banco Master, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instalou na segunda-feira (9) um grupo de trabalho para revisar todos os processos que envolvem a instituição e a Reag, gestora responsável por parte das operações do banco. Master e Reag foram liquidados pelo Banco Central em meio a investigações sobre fraudes e crimes contra o sistema financeiro.

Segundo a CVM, o grupo vai reunir e examinar fatos, informações e processos relacionados ao Master, à Reag e a outras entidades ligadas a eles. O trabalho vai durar três semanas e a meta é produzir um diagnóstico sobre a atuação da autarquia no caso, com eventuais sugestões de aprimoramento em regulação, supervisão e governança.

Um técnico da CVM disse ao Bastidor que a criação do GT foi motivada, em parte, pela falta de um banco de dados consolidado sobre o caso. Havia dificuldade até para responder perguntas básicas, como quantos processos foram abertos contra Master e Reag e quantos alertas sobre o banco e a gestora foram emitidos nos últimos anos.

A principal marca do trabalho é a lentidão. Como mostrou o Bastidor, a CVM investiga há cinco anos suspeitas de irregularidades em operações de fundos da Reag com cártulas do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), papéis sem valor reconhecido, usados em operações do Master consideradas fraudulentas.

A denúncia foi apresentada em outubro de 2020. O inquérito administrativo só foi instaurado em dezembro de 2022, e os investigados começaram a ser ouvidos em setembro de 2024. Em abril de 2025, o inquérito foi convertido em processo administrativo sancionador. As defesas foram apresentadas em setembro de 2025, e o caso ainda aguarda sorteio de relator para julgamento no colegiado da CVM.

Outro ponto que chama a atenção é o teor da acusação da área técnica da CVM, considerada mais favorável aos investigados do que a detectada pela Polícia Federal em apurações sobre o uso das cártulas do Besc pelo Master. Em ambos os casos, as autoridades apontam o uso dos papéis para inflar artificialmente o patrimônio de fundos da Reag.

A acusação da CVM concentra-se na tese de investimento da Reag. A gestora sustenta que as cártulas teriam natureza de direito creditório, enquanto a CVM entende que se tratam de ações físicas e nominativas, inegociáveis desde 1992.

Com base nessa interpretação, a área técnica conclui que a Reag, o seu fundador, João Carlos Mansur, e outros acusados violaram o dever de diligência e normas que vedam a negociação desses ativos e sua inclusão em carteiras de fundos.

Advogados que acompanham o caso avaliam que a acusação é frágil e pode resultar em absolvição, já que há decisões judiciais reconhecendo a natureza creditória dos papéis. O parecer da Procuradoria Federal Especializada, por sua vez, aponta indícios de gestão temerária e possível crime contra o Sistema Financeiro Nacional.

Procurados, a Reag e João Carlos Mansur informaram que não vão se manifestar.