A agenda com que a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, tenta se reerguer depois dos escândalos do Banco Master e da Reag e de anos de cortes no orçamento enfrenta um obstáculo interno, segundo dois integrantes da cúpula da autarquia: a diretora Marina Copola.
A relação entre Marina e Otto Lobo é ruim desde a disputa pela presidência da CVM, dizem as fontes. Otto ocupou o cargo interinamente no segundo semestre de 2025 e assumiu como titular em junho. Marina foi preterida para o cargo, embora tivesse o apoio de André Esteves. Segundo pessoas que acompanharam a escolha, o dono do BTG não escondia que contava com ela à frente da CVM.
Indicado em janeiro, Otto enfrentou críticas a decisões que tomou como diretor e presidente interino. Apesar das diferenças entre diretores e alguns dos funcionários mais graduados do órgão, acertou-se, segundo as fontes, que todos trabalhariam em prol da instituição, de modo a fortalecer a legitimidade da CVM perante a opinião pública, o mercado que a autarquia regula e os políticos e magistrados dos quais ela precisa para obter orçamento, preservar funções e melhorar a carreira dos servidores. Em maio, ao mandar destinar à CVM ao menos 70% da taxa de fiscalização do mercado, o ministro Flávio Dino, do Supremo, chamou o quadro da autarquia de “atrofia institucional e asfixia orçamentária”.
Isso significava muito trabalho interno e silencioso para apresentar resultados. E, claro, nada das pequenas disputas de poder e das picuinhas que rotineiramente minavam o órgão. “Precisamos jogar na bola, só isso”, diz um integrante da cúpula da CVM. “Sem pressão externa e com boa técnica.”
Os dois integrantes da cúpula lembram que as decisões do colegiado são frequentemente unânimes – das mais simples, como a rejeição, em setembro, de um acordo proposto por administradores da construtora Sultepa, às mais complexas, como a OPA da Oncoclínicas.
As duas fontes apontam Marina como o fator que desestabiliza essa agenda. Atribuem a ela vazamentos recentes destinados a desgastar a gestão de Otto. O problema, dizem, é que o desgaste recai sobre a CVM. Diz uma delas: “Existe uma desconexão entre o que estamos fazendo e entregando e o que aparece muitas vezes na mídia. Essas narrativas de que estamos a serviço de fulano ou sicrano são falsas e simplesmente não batem com o que estamos entregando toda semana”.
Até poucos meses atrás, Marina era a favorita para uma das duas diretorias do Banco Central vagas desde janeiro. Agora que Lula prepara as indicações, outros nomes passaram à frente. O mandato dela na CVM vai até o fim de 2028.