Documentos obtidos pelo Bastidor revelam que três filhos de João Carlos Mansur, fundador da Reag, apareciam como beneficiários finais do fundo Gold Style, hoje sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários e da Polícia Federal. As apurações indicam que o fundo foi usado em esquemas de fraude fiscal, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.
Na Operação Carbono Oculto, a PF identificou que o Gold Style recebeu 1 bilhão de reais, entre 2023 e 2025, de empresas suspeitas de ligação com o PCC. A maior parte do valor, 795,5 milhões de reais, foi repassada pela Aster Petróleo, distribuidora investigada por suspeita de vínculo com a facção.
No mesmo período, o fundo transferiu 180 milhões de reais a uma empresa de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, segundo o G1. Os dados mostram que tanto empresas ligadas ao PCC quanto operadores ligados ao entorno do Master usaram a estrutura financeira da Reag.
Os fatos demonstram também que a família Mansur não ocupava apenas cargos na gestora, mas exercia funções operacionais em fundos usados como instrumentos para crimes. A família era beneficiária e cotista dos fundos, além de administradora.
Como revelou o Bastidor, o fundo é alvo de investigação da CVM desde 2020. A apuração trata do uso de cártulas do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em operações consideradas irregulares. Em uma delas, o Gold Style repassou 80 milhões de reais desses papéis a uma empresa controlada por outros fundos da própria Reag como garantia em uma execução fiscal, embora os ativos não tenham valor de mercado.
Segundo acusação feita pela CVM em abril do ano passado, as operações com essas cártulas seguiram um padrão, com compra por valores irrisórios, circulação entre fundos com beneficiários finais em comum, reavaliações sucessivas que inflaram artificialmente os preços e tentativas de uso fora da estrutura dos fundos.
Criado em abril de 2020, o Gold Style é gerido pela Reag desde o início e passou a ser administrado pela gestora em outubro daquele ano, após período sob a Monetar. Hoje, o patrimônio líquido é de 1,87 bilhão de reais, mas já variou entre 700 milhões e 5,8 bilhões de reais. As demonstrações financeiras mostram que o fundo tem apenas um ativo, as cártulas do Besc, e que as oscilações no patrimônio decorreram da venda ou da reprecificação desses papéis.
Mesmo sob investigação, o fundo continuou operando com as cártulas. Entre 2022 e 2024, realizou 19 operações que somam 4,1 bilhões de reais, com concentração em 2023, segundo as demonstrações financeiras mais recentes.
A Baker Tilly auditou as contas do fundo, mas se absteve de opinar devido às cártulas do Besc. A empresa afirmou que não foi possível assegurar o valor desses direitos creditórios diante da ausência de mercado organizado, da falta de câmara de liquidação e das divergências entre valor contábil, avaliações de terceiros e preços observados em vendas.
Na estrutura de cotistas, o Gold Style hoje tem um único investidor. Até janeiro de 2024, tinha dois. Documentos da CVM obtidos pelo Bastidor mostram que, antes da mudança, os cotistas eram os fundos Novo e Excalibur.
Esses dois veículos levavam a uma rede de outros dez fundos até chegar aos beneficiários finais. Em uma ponta, a cadeia partia do Novo, passava por Pabbie, Marsh e Oaken e chegava ao Reag V, que tinha participação igual de Beatriz, Lucas e Marina Mansur, todos filhos de João Carlos Mansur, à época presidente da Reag e responsável direto pelo Gold Style junto à Receita Federal. Na outra ponta, partia do Excalibur e se espalhava por Carbon Thirst, Hans, Kai e Pasha. Desse ramo saíam as ligações com José Antônio Bittencourt e Felipe Saraiva, além de novas passagens por Oaken e Reag V até os três filhos de Mansur.
Esse tipo de arranjo é usado no mercado para interpor camadas entre o fundo principal e os donos finais dos recursos. Na prática, dificulta a identificação dos verdadeiros beneficiários, embaralha a rastreabilidade das operações e permite movimentar ativos entre veículos formalmente distintos, mas controlados pelo mesmo grupo.
Ao final dessa estrutura, apareciam como beneficiários finais Beatriz, Lucas e Marina Mansur, além do advogado Felipe Saraiva e do empresário José Antônio Bittencourt. Em depoimento à CVM, em setembro de 2024, João Carlos Mansur afirmou que seus filhos tinham conhecimento das operações com as cártulas do Besc. A Reag também foi alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero. Publicamente, Mansur negou qualquer vínculo da Reag com o PCC e sustentou que o Master era apenas um cliente como outro qualquer.
O Bastidor tenta contato com a defesa de todos os citados. Até o momento, não houve retorno.

