O BRB pagou quase 470 milhões de reais ao Banco Master em 27 e 28 de março de 2025 sem esperar a conclusão do parecer que avaliava os riscos das operações. A análise só ficou pronta em 7 de abril, dez dias depois da última transferência de valores.
A pressa aparece nos e-mails trocados entre funcionários do BRB. Nos dois dias, mensagens registraram que ainda havia etapas internas de aprovação pendentes. Poucas horas depois, novos e-mails já pediam apoio para concluir as operações. A diretoria do banco havia autorizado as compras, mas o parecer de risco ainda não estava pronto quando o dinheiro saiu.
A sequência foi reconstruída num laudo de perícia criminal feito pela Polícia Federal. Os peritos examinaram 176 arquivos fornecidos pelo BRB, entre e-mails, registros de pagamentos, pareceres técnicos e atas de reuniões. O trabalho mostra como o banco estatal avançou nas compras de carteiras de crédito do Master antes de concluir análises que deveriam preceder e orientar essas decisões.
Em 27 de março, às 16h13, um e-mail sobre a compra de uma carteira de 199,99 milhões de reais informava que a liquidação ainda dependia de etapas internas de aprovação. Às 17h41, outra mensagem já pedia apoio para concluir a operação.
A situação se repetiu no dia seguinte. Às 12h37, uma mensagem apontou que uma carteira de 270 milhões de reais ainda aguardava aprovação na esteira de governança. Às 16h17, funcionários pediram apoio para liberar o pagamento. As duas transferências foram registradas nas respectivas datas.
Os pagamentos faziam parte de uma operação maior, de 742,74 milhões de reais, aprovada pela diretoria do BRB em 20 de março de 2025. Naquele mesmo dia, o banco já havia transferido 272,75 milhões de reais ao Master. O parecer de risco só foi concluído 18 dias depois desse primeiro desembolso.
A perícia identificou 22 pagamentos nessas condições, que somaram 7,63 bilhões de reais. Em todos eles, pelo menos um parecer técnico foi concluído depois da transferência dos recursos. Os detalhes das operações mostram o que ainda estava em análise quando o BRB já havia assumido os riscos das compras.
Em janeiro de 2025, por exemplo, o banco começou a pagar por uma carteira de quase 750 milhões de reais antes de concluir as avaliações. A primeira transferência, de 276,5 milhões de reais, ocorreu no dia 8. No dia seguinte, a área de planejamento assinou um parecer que mostrava como o negócio poderia deixar de ser lucrativo caso as perdas com os créditos fossem maiores que o previsto.
Num cenário com perdas menores, a compra poderia render 16,99% ao ano, depois de considerado o risco. Se as perdas fossem maiores, o retorno projetado cairia para 7,29% negativo. A margem financeira também ficaria abaixo de zero.
Em 13 de janeiro de 2025, quatro dias depois da assinatura do parecer, o BRB transferiu mais 473,49 milhões de reais ao Master. Naquela tarde, um e-mail já informava que a operação havia sido liquidada na B3. O laudo não esclarece se as ressalvas sobre a rentabilidade do negócio foram consideradas antes desse segundo pagamento.
O parecer da área de risco do BRB demorou ainda mais. Só ficou pronto em 27 de janeiro, 19 dias depois da primeira transferência. A análise apontava que a compra poderia comprometer a liquidez do BRB, ou seja, sua capacidade de manter dinheiro disponível para cumprir obrigações. O indicador projetado ficaria abaixo do nível desejável pelo próprio banco.
Os problemas não se limitavam ao risco financeiro. Em 4 de abril de 2025, um grupo de trabalho criado pelo BRB concluiu um relatório que apontava falhas na documentação das carteiras compradas do Master, dificuldades para comprovar contratos e inconsistências nos repasses de dinheiro. Parte dos documentos examinados não tinha assinatura dos clientes. Outros empréstimos não apresentavam comprovação do registro necessário para o desconto das parcelas em folha.
Apesar dos alertas, as compras continuaram. Em 5 de maio de 2025, o BRB aprovou e pagou mais 749,99 milhões de reais por uma carteira do Master. Na mesma reunião, a diretoria permitiu que documentos importantes fossem entregues em até quinze dias, incluindo contratos de cessão, comprovantes de registro dos empréstimos e documentos de auditoria.
Os diretores também decidiram não acionar, por 120 dias, uma cláusula que permitia exigir a recompra de créditos pelo Master. A decisão foi tomada depois que o grupo de trabalho já havia apontado problemas na documentação e na qualidade das carteiras adquiridas.
Nove dias depois do pagamento, em 14 de maio de 2025, o parecer de risco ainda registrava a falta de contratos e documentos de auditoria. Também apontava que a compra havia consumido cerca de 750 milhões de reais em recursos imediatamente disponíveis e que o BRB estava abaixo do limite interno de liquidez. O prazo para a entrega dos documentos ainda não havia terminado, mas o dinheiro já estava no caixa do Master.
As três operações ocorreram durante a gestão de Paulo Henrique Costa, marcada pela pressão para acelerar os negócios com o banco de Daniel Vorcaro. Uma investigação independente contratada pelo BRB reuniu relatos de funcionários que eram cobrados para concluir análises em poucos dias, inclusive nos fins de semana. De acordo com as investigações da Polícia Federal, Costa recebeu 74 milhões de reais em propina de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em forma de imóveis de luxo.
Em janeiro de 2025, Costa chegou a informar a um subordinado que havia assumido o compromisso de realizar uma compra líquida de 750 milhões de reais para ajudar o Master a reforçar seu caixa. A conversa não foi vinculada pela perícia às três operações descritas, mas revela a prioridade que o então presidente dava aos negócios com a instituição de Vorcaro.
As aprovações, porém, não dependiam apenas de Costa. Ele estava ausente da reunião que autorizou a compra de janeiro de 2025, mas votou a favor das operações de março e maio de 2025. Os diretores Cristiane Bukowitz, Dario Garcia, Luana Ribeiro e Diogo Oliveira participaram das três decisões. José Maria Dias Junior votou favoravelmente em janeiro e maio de 2025, mas estava ausente em março daquele ano. Todas as aprovações foram unânimes entre os presentes com direito a voto.
A perícia destacou especialmente a atuação de Dario e Luana. Como diretor de Finanças e Controladoria, Dario comandava a área que apresentava as propostas e conduzia os pagamentos. Sua diretoria também recebeu os relatórios sobre problemas nas carteiras. Luana, responsável por Controle e Riscos, assinou alertas sobre a liquidez do BRB e participou de decisões posteriores a essas advertências.
Os documentos comprovam que os relatórios do grupo de trabalho foram enviados à diretoria de Dario, mas não demonstram que todos os demais dirigentes tiveram acesso ao conteúdo integral. Para os peritos, a responsabilidade dos dois vai além da participação nas votações, por causa das atribuições de suas áreas.
Outro problema estava na forma de aprovar as compras. Entre julho de 2024 e outubro de 2025, a diretoria autorizou 25 operações com o Master, num total de 17,5 bilhões de reais em limites de aquisição. Em 21 dessas decisões, autorizou compras de até 750 milhões de reais, exatamente o máximo que podia aprovar sem levar os negócios ao conselho de administração.
As aprovações se sucediam, muitas vezes com poucos dias de intervalo. Para a Polícia Federal, a repetição de operações no limite permitido à diretoria impediu que o conselho avaliasse o tamanho da exposição do BRB ao Master como um todo.
A perícia concluiu que os pagamentos feitos antes da conclusão dos pareceres, a divisão das compras e a continuidade dos negócios apesar dos alertas formam um padrão de gestão fraudulenta. Em 28 de outubro deste ano, a PF indiciou Costa, Vorcaro e outras 13 pessoas por suspeitas de crimes financeiros. Entre os indiciados estão também os cinco diretores do BRB que participaram das aprovações: Cristiane, Dario, Luana, Diogo e José Maria.
Paulo Henrique Costa nega ter pressionado funcionários e afirma que as decisões eram colegiadas. Em depoimento à PF, atribuiu os atrasos dos pareceres a questões burocráticas e de assinatura. Sua defesa sustenta que ele desconhecia as fraudes nas carteiras e que atuou para identificar irregularidades. A defesa de Vorcaro contesta as acusações e afirma que não há provas de fraude nas operações. O Bastidor busca a defesa dos demais citados.