O Ministério Público de São Paulo denunciou nesta quarta-feira (26) o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e mais 15 pessoas por integrar organização criminosa dedicada a desviar e adulterar combustível com metanol em postos de gasolina na grande São Paulo, num esquema que movimentou quase três bilhões de reais entre 2017 e 2025.
Beto Louco está foragido e é apontado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, como um dos principais financiadores do grupo. Também foragido, Mohamad Hussein Mourad, dono da distribuidora Copape e parceiro de Beto Louco, não está na lista dos denunciados nesta quarta.
Em outubro de 2025, os dois tentaram fechar uma colaboração premiada, oferecendo devolver parte dos valores desviados em troca da revogação da prisão preventiva de ambos. O Ministério Público, contudo, recusou o acordo depois de concluir que a dupla omitiu informações relevantes sobre a ligação do esquema com o Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Além de Beto Louco, os outros denunciados são: Cesar Cirne Leal, Ed Charles Giusti, Edson da Silva Santos, Everton Felipe de Barros, conhecido como Soró, Filipe Studzinski de Souza, Fernando de Matos Gutierres, Giosimar Jose Caldato, Giovani Dadalt Crespani, José Frederico Modolin Filho, Murilo Foresto de Souza, Rodrigo Augusto Alves de Carvalho Bortone, Ruy Azevedo Gutierres, Thiago Gomes Ribeiro e William Lopes da Silva Júnior. A denúncia os descreve como operadores logísticos do esquema, sócios de empresas químicas usadas como fachada e laranjas que emprestaram o nome às transações e fornecedores do metanol desviado.
Admar de Carvalho Martins, um dos denunciados, também responde a um processo que envolve a empresa de ônibus UPBus, ao lado de Sílvio Luís Ferreira, o Cebola, apontado pela polícia como liderança do PCC.
A denúncia de hoje mira os postos que recebiam o metanol desviado. Segundo o MP, o grupo comprava a substância de importadoras e terminais portuários com notas fiscais que indicavam destino industrial e a descarregava diretamente nos tanques de combustível, lavando o lucro por meio da BK Instituição de Pagamento, o BK Bank, e de fundos de investimento em direitos creditórios sem lastro econômico real.
Delação frustrada
O Bastidor teve acesso à proposta de colaboração apresentada por Mourad e Beto Louco ao MPSP. Nela, os dois descrevem um esquema com pagamento de propina mensal de três milhões de reais a auditores da Secretaria da Fazenda de São Paulo, corrupção de juízes do Tribunal de Impostos e Taxas, o TIT, e suborno a um magistrado de Itapevi, com o objetivo de cancelar as autuações fiscais bilionárias que recaíam sobre a Copape.
A proposta continha ainda informação sobre o vazamento antecipado da deflagração de operações policiais, entre elas a própria Carbono Oculto. Beto Louco e Mourad não foram localizados quando a operação foi deflagrada, em agosto de 2025, e seguem foragidos até hoje. Segundo os delatores, o motivo foi um aviso antecipado dado por Vitor Santos, ex-fiscal da Sefaz-SP e sócio do advogado Márcio Maia na empresa Revizia, com acesso ao Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo, o CIRA.
A Copape acumula mais de 6 bilhões de reais em dívidas com a Receita Estadual e enfrentava cerca de 400 autuações da Agência Nacional do Petróleo, a ANP.
Em nota, a defesa de Beto Louco afirma que “não teve acesso aos autos até o momento. Contudo, diante do que foi informado pela mídia, os fatos tratados na denúncia não têm nenhum relacionamento com Roberto. Sua inclusão no processo parece uma infeliz tentativa de gerar repercussão midiática, como já ocorreu anteriormente.”
O Bastidor tenta contato com a defesa de Admar de Carvalho Martins.
Texto atualizado às 18h45 para incluir nota da defesa de Beto Louco.

