A ofensiva da Previ sobre o conselho de administração da Vale terminou com uma vitória parcial para o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o Ollie, apoiado pela Previ para assumir a presidência do colegiado, foi eleito com 1,97 bilhão de votos.
O fundo, porém, não conseguiu emplacar José Maurício Pereira Coelho na cadeira aberta no conselho. Ex-presidente da Previ e do próprio conselho da Vale, ele recebeu 628,5 milhões de votos e foi derrotado por Ieda Gomes Yell, escolhida por 2,4 bilhões de ações. A assembleia reuniu votos equivalentes a 82,4% do capital votante da mineradora.
O resultado confirmou o cenário antecipado pelo mapa de votação a distância. Como o Bastidor mostrou, Ollie já chegava à assembleia com vantagem sobre Marcelo Gasparino, enquanto José Maurício aparecia atrás de Ieda.
Mais do que uma disputa por espaço no comando da Vale, o movimento expôs uma crise interna no conselho. Documentos que antecederam a assembleia revelam acusações de interferência política, questionamentos sobre conflitos de interesses, vazamento de informações confidenciais e até a suspeita de gravações clandestinas de reuniões privadas.
A ofensiva começou em 11 de junho. Dona de cerca de 7% da Vale, a Previ pediu a convocação de uma assembleia extraordinária para destituir Daniel Stieler, então presidente do conselho. O fundo também indicou José Maurício para a cadeira e declarou apoio a Ollie para assumir a presidência.
Stieler renunciou em 6 de julho, antes da assembleia. A saída antecipada abriu a vaga no conselho e retirou da pauta a votação sobre sua destituição.
A Previ justificou o movimento pela necessidade de melhorar a governança, alinhar a atuação do conselho à estratégia da companhia e ampliar a criação de valor no longo prazo. Não apontou, porém, uma falha específica, irregularidade ou episódio concreto atribuído a Stieler.
A reação da maioria do conselho foi dura. Em reunião realizada em 19 de junho, os integrantes classificaram o pedido como estranho e intempestivo. Nove conselheiros recomendaram aos acionistas a manutenção de Stieler. Houve um voto contrário e três abstenções. Ao mesmo tempo, o conselho preparou alternativas aos nomes defendidos pela Previ.
Para a cadeira aberta, o Comitê de Indicação e Governança preferiu Ieda Gomes, que já havia passado pelo processo formal de seleção da Vale, com participação da consultoria Korn Ferry. José Maurício foi considerado tecnicamente habilitado, mas não havia sido avaliado pelo mesmo procedimento. A maioria do conselho decidiu recomendar Ieda aos acionistas.
Para a presidência, surgiram dois candidatos. Ollie confirmou sua candidatura em linha com a carta enviada pela Previ. Gasparino, então vice-presidente do conselho, também entrou na disputa. Os dois nomes foram encaminhados à assembleia.
Nos bastidores, Ollie enfrentou resistência. Stieler defendeu Gasparino como sucessor natural, sob o argumento de que a escolha preservaria a coesão do conselho. Gasparino também se posicionou contra Ollie na discussão do Comitê de Indicação.
Foi Gasparino quem fez as acusações mais duras. Em sua manifestação, classificou a iniciativa da Previ como um movimento hostil, afirmou que havia risco de interferência política e mencionou pressões externas sobre a diretoria executiva da Vale. Não identificou, porém, quem estaria por trás dessas pressões nem apresentou provas de participação do governo.
A acusação surgiu num ambiente já marcado por suspeitas sobre a atuação do governo Lula na Vale. Em 2024, o presidente tentou emplacar Guido Mantega no comando da mineradora. Na disputa atual, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pediu uma reunião urgente com todos os conselheiros. O pedido causou mal-estar e o encontro não ocorreu.
A Previ nega motivação política. Oficialmente, afirma que apoiou Ollie por sua qualificação, experiência internacional e independência e que atua como investidor institucional. Uma fonte ligada ao fundo disse ao Bastidor que as regras de governança exigem um presidente independente, mas não impedem acionistas de apoiar publicamente um candidato.
Gasparino também registrou “repúdio e indignação” diante da hipótese de reuniões do conselho terem sido gravadas clandestinamente. Disse que o episódio merecia apuração. O documento não comprova que as gravações existiram nem informa quem poderia tê-las feito.
A suspeita surgiu em meio ao vazamento de informações de uma reunião confidencial do Comitê de Indicação. O fundo Geração L. Par e Banco Clássico, do bilionário José João Abdalla Filho, o Juca Abdalla, recorreram à Comissão de Valores Mobiliários alegando que Ollie havia sido rejeitado pelo comitê e questionando se o apoio da Previ comprometia sua independência.
A Vale afirmou ter recebido com surpresa a referência à ata, porque o documento não era público e deveria permanecer restrito aos integrantes do comitê e do conselho. A Previ respondeu pedindo que a CVM investigasse como os acionistas tiveram acesso ao material. Para o fundo, a consulta indicava possível acesso ilícito a documentos internos da mineradora.
O caso deu origem a um processo administrativo na CVM. A autarquia informou que não conseguiria responder às questões antes da assembleia devido à complexidade do assunto. Pediu manifestações da Vale e da Previ e determinou que os acionistas fossem informados sobre a controvérsia.
Outro conflito apareceu dentro do próprio conselho. Márcio Chiumento, o único conselheiro a defender a saída de Stieler, afirmou que o então presidente havia participado da discussão e votado em uma deliberação diretamente ligada à própria permanência no cargo.
Chiumento disse ter levantado o possível conflito durante a reunião, embora a ata registrasse inicialmente que nenhum conselheiro havia feito esse questionamento. Para ele, Stieler deveria ter declarado o interesse pessoal, deixado a discussão e se abstido da votação.
A assembleia resolveu a disputa de forma dividida. A Previ conseguiu eleger Ollie para a presidência, seu principal objetivo, mas não levou José Maurício ao conselho. Os acionistas preferiram Ieda, candidata escolhida pelo processo interno da Vale e apoiada pela maioria do colegiado.
O resultado mostrou a força da Previ para influenciar o principal posto do conselho, mas também expôs os limites de sua capacidade de reorganizar sozinha o comando da mineradora. A ofensiva terminou com uma vitória parcial e deixou à vista as fraturas internas do colegiado, as suspeitas de interferência política e uma controvérsia regulatória que ainda pode produzir novos desdobramentos.

