A Oncoclínicas negocia com a Porto Seguro um aporte de 1 bilhão de reais. A operação poderá ser decisiva para salvar a rede de clínicas oncológicas, que acumula dívida bruta de 4,8 bilhões de reais e negocia com credores para evitar um calote.
Na noite de domingo (15), a empresa anunciou a assinatura de um acordo preliminar – e não vinculante com a Porto Seguro. Pelo documento, a seguradora fará um aporte de 500 milhões de reais e comprará outros 500 milhões de reais em debêntures, caso a operação seja concluída.
Os recursos não serão aplicados diretamente na Oncoclínicas. A proposta prevê a criação de uma nova companhia em parceria com a Porto Seguro, que reunirá apenas o negócio de clínicas oncológicas. Os hospitais permanecerão na estrutura atual da Oncoclínicas.
Nesse arranjo, a Porto Seguro terá o controle das decisões, com a maioria dos votos, além de pelo menos 30% do capital total. A Oncoclínicas entrará com as clínicas e passará a ser sócia minoritária.
Segundo o comunicado, as debêntures compradas pela Porto poderão ser convertidas em ações a partir do terceiro ano da emissão e renderão 110% do CDI. O acordo também prevê a transferência de parte das dívidas da Oncoclínicas para a nova companhia, o que aliviará o balanço da empresa-mãe. A operação tem potencial de reorganizar a estrutura financeira da Oncoclínicas, com a entrada de capital novo e a divisão de risco com um parceiro de maior solidez.
Como o acordo não é vinculante, nenhuma das partes é obrigada a concluir o negócio. Para avançar, a operação ainda dependerá de due diligence da Porto Seguro, de aprovações regulatórias e do aval de acionistas e credores da Oncoclínicas. A empresa se comprometeu a negociar com exclusividade com a Porto por 30 dias.
Como mostrou o Bastidor, a crise da Oncoclínicas tem relação com o escândalo do Banco Master. Após o IPO, em 2021, a companhia iniciou um plano de expansão acelerada, com investimentos em hospitais e projetos de centros de atendimento a pacientes com câncer. A estratégia perdeu sustentação com a alta dos juros.
Em 2024, o Banco Master entrou como sócio com um aporte de 1 bilhão de reais. A aproximação é atribuída à relação entre o fundador da Oncoclínicas, Bruno Ferrari, e o dono do Master, Daniel Vorcaro.
A Oncoclínicas passou a aplicar parte desse aporte em CDBs do próprio Banco Master. Na prática, a companhia recebia recursos do banco como acionista e direcionava parte deles de volta ao próprio banco como credor, criando um ciclo de dependência financeira entre as duas partes. Ao todo, foram investidos 478 milhões de reais em papéis do Master.
Com a liquidação do Master, em novembro, a situação de caixa da Oncoclínicas piorou A decisão de aplicar recursos recebidos do banco em títulos do próprio Master, somada à contratação de empresas ligadas a Bruno Ferrari, agravou a percepção de problemas de governança e abalou a confiança de credores, fornecedores e médicos.
Em meio à crise, Bruno Ferrari deixou o cargo de CEO. O oncologista Carlos Gil Moreira Ferreira, então diretor médico da companhia, assumiu interinamente a função. Ferrari permanece como vice-presidente do conselho, enquanto a empresa conduz a busca por um novo CEO.

