O Bastidor completa seus primeiros cinco anos neste mês. É uma data para celebrar, refletir e consolidar nossa visão de futuro. Nascemos, como anunciei naqueles dias incertos de pandemia, em novembro de 2020, com a missão de iluminar os segredos do poder em Brasília. A teoria é bonita e simples; a prática, uma máquina de moer ossos e sonhos. Como em outros ofícios, só quem se mete na lida sabe o quão difícil é. E o quão prazerosa e significativa ela pode ser.
Como escreveu Goethe no Fausto, por meio de Mefisto: “Gris, caro amigo, é toda teoria. E verde a dourada árvore da vida”. Esse trecho nunca me abandonou. Enxergo minha verdade nele. (Uma IA provavelmente recomendaria retirar essa citação, que talvez soe como erudição afetada e fuja ao modelo de texto sintético em bullets. Dou de ombros. É o que mostra quem sou, quem somos: imperfeitos, humanos.)
Em tempos de prevalência de propagandas políticas, econômicas e ideológicas, trabalhamos, como tantos outros na profissão, para que fatos — evidências concatenadas com rigor lógico — venham ao conhecimento público. Um cínico pode argumentar que todo fato está numa “narrativa” ou que será capturado por uma “narrativa”. E que não há fato sem viés. Que jornalistas têm suas preferências, e elas moldam sua visão de mundo.
É um debate antigo. Essa percepção crítica é válida. Ainda assim, há uma distinção fundamental entre jornalistas e aqueles que usam fatos a serviço de uma agenda política, econômica ou ideológica. Quem pratica propaganda — “narrativa”, na palavra do momento — parte de um objetivo para escolher fatos que se subordinem a ele. Quem pratica jornalismo sério parte da apuração clínica de fatos para chegar, se chegar, à melhor versão disponível e precária dos… fatos. Nem se usa a palavra verdade. É grande demais.
Há quem duvide, mas jornalistas somos humanos. Como quaisquer profissionais, erramos, mesmo quando acertamos todos os fatos. Mas o nosso compromisso — ainda que às vezes se manifeste de forma equivocada, e por isso mereça críticas — é com a obtenção e a publicação de fatos de possível interesse público. Parece uma platitude. Talvez não seja mais. O propósito da apuração — e o uso que se faz dela — separa o jornalismo de outros ofícios.
Jornalismo pode não ser arte, mas também não é conteúdo.
Graças ao trabalho de todos que apostaram no veículo e confiaram em minha liderança — de repórteres a fontes e, antes de tudo, nossos leitores — acredito que cumprimos nossa missão. Ou seja, no sentido mais simples e elementar, fizemos jornalismo. E chegamos a este momento mais fortes do que nunca. Estamos prontos para os próximos cinco anos.
Acertamos mais do que erramos. E sempre fomos honestos em reconhecer nossos equívocos. Aprendemos com eles. Nossos melhores momentos deram-se, não por acaso, quando nosso jornalismo alinhou-se à nossa missão; quando, com sorte e trabalho duro, muito trabalho duro, arrancamos fatos às sombras do poder. Por meio de uma combinação cada vez mais afinada entre repórteres de qualidade e tecnologia igualmente de primeira, perseguimos furos de impacto e alta relevância. Produzimos reportagens investigativas sólidas, alicerçadas em evidências, sobre presidentes, parlamentares, ministros, juízes e grandes empresários. Antecipamos movimentos políticos, jurídicos e empresariais. Fomos a fundo nas maiores disputas empresariais do país.
Felizmente, não faltam exemplos disso. Nos últimos anos, em reportagens que frequentemente antecederam operações policiais, expusemos a infiltração do crime organizado no sistema financeiro e no mercado de combustíveis. Revelamos movimentos políticos e judiciais questionáveis, que acabaram por beneficiar grandes grupos empresariais, como as medidas do governo que, na prática, representaram uma anistia às empreiteiras alvo da Lava Jato. Cobrimos decisões criminais e eleitorais da cúpula do Judiciário, com espírito crítico e análises meticulosas.
Fizemos tudo isso sob grande custo pessoal e profissional, do qual não costumamos reclamar. Mas, em datas como esta, a menção me parece importante. Intimidações e pressões sempre foram a regra na profissão. O abuso judicial e o empastelamento digital, por meio de ataques de hackers, são novidades. Exigem ainda mais tenacidade. Somos obrigados a fortalecer nossas infraestruturas digitais e nossa equipe jurídica para fazer frente às investidas cotidianas que, com frequência, ultrapassam o razoável e mesmo a legalidade. Custam tempo, custam dinheiro e, não raro, custam nossa sanidade.
Para quem está nessa, parece uma guerra. É imprescindível, porém, resistir à mentalidade de sítio, consequência humana compreensível dos ataques e assédios constantes. Resistimos porque não estamos em guerra contra ninguém, ainda que alguns estejam contra nós. Estamos apenas fazendo nosso trabalho, do modo mais equilibrado, firme e justo possível. Não somos soldados, muito menos heróis. Somos apenas profissionais dos fatos.
É com esse espírito ideologicamente desarmado no exercício da profissão, mas bem fortificado de propósito, que seguimos rumo aos próximos cinco anos – e além.

