A maioria dos ministros do Supremo estão entre indignados e enfurecidos com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em razão do avanço exitoso dele contra Dias Toffoli. Dois ministros e um assessor da corte ouvidos reservadamente pelo Bastidor ontem à noite e hoje pela manhã, após as reuniões internas que culminaram na saída de Toffoli da relatoria das investigações sobre o Banco Master, foram incisivos: sob o comando de Andrei, a PF investigou – “devassou a vida”, nas palavras de um deles – de Toffoli sem autorização judicial. Organizou uma campanha midiática com vazamentos seletivos para criar o ambiente político que permitiu a ele, Andrei, emparedar o Supremo. Além de lançarem sérias suspeitas sobre o que motiva Andrei no caso, definiram o diretor da PF como “inimigo do Supremo”.
À exceção de Cármen Lúcia e Edson Fachin, os demais ministros demonstraram perplexidade com o relatório produzido pela PF sobre as relações de Toffoli e de sua família, incluindo sua ex-mulher, a advogada Roberta Rangel, com o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo essas fontes, o relatório não se trata de uma simples lista de “achados” fortuitos sobre Toffoli, levada de “boa fé” pelo diretor da PF ao presidente do Supremo. Na visão da maioria dos ministros, houve uma investigação ampla e “flagrantemente ilegal” sobre Toffoli. Eles enxergaram, na ação de Andrei, uma ação política e vingativa – não só contra Toffoli, mas também contra a própria corte. “Ele (Andrei) está manobrando a opinião pública contra o Supremo. Já vimos esse filme. Não acaba bem para ninguém”, disse um dos ministros.
Toffoli e os demais ministros, em suma e por óbvio, resolveram mudar a relatoria do caso Master porque não tinham uma opção política menos danosa, em face da crise enfrentada pelo ministro e pelo tribunal. Foram enquadrados. Na reunião de ontem, ministros como Cristiano Zanin e André Mendonça, por exemplo, reclamaram da qualidade e da velocidade do trabalho da PF em outros casos. Mencionaram os inquéritos sobre comércio de sentenças no Superior Tribunal de Justiça, relatado por Zanin, e acerca das fraudes no INSS, relatado por Mendonça. Zanin deu a entender que a PF não se esforça no caso da venda de sentenças; Mendonça aludiu sutilmente ao fato de que o caso do INSS tem fortes implicações políticas, com envolvimento do filho do presidente Lula, e que ele poderia ser alvo de investidas semelhantes da PF.
Como os demais, questionaram a legalidade da ação de Andrei e deixaram evidente o desconforto com Fachin. Os ministros consideraram que o presidente do Supremo conferiu legitimidade a um pedido de suspeição e a um material que deveriam ter sido devolvidos na mesma hora. Um ministro disse: “É difícil acreditar que o diretor-geral da PF sentou com Fachin para entregar esse material sem que ele soubesse antes do que se tratava. Se não sabia, deveria, no mínimo, ter convocado imediatamente o PGR (Paulo Gonet) para tomar conhecimento e participar do ato. Parece jogo combinado”.
De acordo com esses relatos, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, cuja esposa tinha um contrato advocatício com o Banco Master, foram duros nas críticas a Andrei e ao trabalho da PF. Deixaram claro que perderam qualquer confiança no diretor da PF. Já fora da reunião, afirmaram que ele foi “desleal” com Ricardo Lewandowski, que deixou o Ministério da Justiça recentemente. Atribuem a Andrei vazamentos, que também julgam seletivos, sobre pagamentos do Master ao escritório de advocacia da família de Lewandowski.
Nas conversas reservadas com a reportagem, os ministros rejeitam a interpretação de que as críticas à PF são uma reação corporativista a um trabalho incômodo, porém necessário e legítimo, dos policiais. Um deles expressou ressalvas à atuação de Toffoli nas investigações do Master, mas disse que não poderia haver “ingenuidade” na avaliação dos movimentos de Andrei e dos delegados sob o comando dele. O assessor também tentou separar os fatos danosos a Toffoli, que causam desconforto em alguns ministros, do modo como o diretor da PF lidou com o assunto.
Os ministros asseguram que levarão a Lula as reclamações. E deixam evidente, mais uma vez, que a aliança entre o Supremo e o Planalto – algo que eles negam mesmo sob reserva, apesar de se tratar de um fato político notório – está trincada. “Agora que o Supremo condenou Bolsonaro e os golpistas, é muito cômodo para Lula deixar a corte queimar em público e dizer que a PF é independente. Até o Lewandowski o Lula sacrificou”, afirmou um dos ministros. “Ao que se sabe, curiosamente esse assunto (Banco Master) passou bastante pelo Planalto também. A ver o quão independente essa PF do rapaz (Andrei) será agora.”

