Não basta vestir camisa da Seleção Brasileira, defender o tarifaço de Donald Trump e atacar ministros do Supremo Tribunal Federal. É preciso fugir do Brasil. O padrão está estabelecido: filho, ministro, partidário ou apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro, que é processado ou foi condenado pela Justiça, foge para não ser preso.

O mais recente adepto da fuga é o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, capturado nesta sexta-feira (30) em Assunção, no Paraguai. No seu caso, tentativa. Condenado a 24 anos de prisão por participação na trama golpista de 2022, Vasques rompeu a tornozeleira na noite de Natal. Segundo relato da Polícia Federal, ele colocou o cachorro e alguns sacos de ração no carro e fugiu rumo ao país vizinho. Foi detido no Aeroporto de Assunção, quando tentava embarcar para El Salvador com um passaporte falso.

Vasques usou um modus operandi semelhante ao do ex-colega de governo, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem. Condenado pelo Supremo a 16 anos de prisão por participação na trama golpista, Ramagem voou do Rio a Boa Vista, em Roraima, em setembro. De lá viajou de carro até a Guiana, de onde embarcou para os Estados Unidos. Estabeleceu-se na Flórida. Diz que vai vender cursos na internet para viver.

Ex-colega de Ramagem na Câmara, Carla Zambelli escapou pela Argentina em junho, depois de ser condenada pelo Supremo a 10 anos de prisão por tentativa de invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça. Já foragida, foi condenada em outro processo, por porte ilegal de arma, ao correr atrás de um homem com um revólver em punho na véspera do segundo turno de 2022.

De carro, Zambelli entrou no país vizinho e pegou um avião para os Estados Unidos. Dias depois foi para a Itália, confiantes que sua cidadania italiana seria suficiente para evitar a prisão. Denunciada por um deputado italiano, foi presa e aguarda na cadeia a conclusão do processo de extradição para o Brasil.

O mais famoso dos exilados – ou adeptos da fuga – é o ex-deptuado Eduardo Bolsonaro. No início do ano, Eduardo fez seguidas viagens aos Estados Unidos, até que não voltou de uma delas. Estabeleceu-se em fevereiro no Texas. Ao lado do blogueiro Paulo Figueiredo, fez um eficiente lobby contra o governo brasileiro e o Supremo para tentar abalar o processo contra o pai no Supremo. Convenceu o governo de Donald Trump a colocar tarifas a produtos brasileiros e impor sanções a autoridades locais, inclusive a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, Viviane Barci.

Após a condenação do pai, o fim do tarifaço e a suspensão da Magnitsky, Eduardo permanece nos Estados Unidos, pois também é processado no Supremo por tentativa de coação. Perdeu o mandato por faltas.

O método da fuga para o exílio foi inaugurada pelos bolsonaristas ainda durante o governo de Jair Bolsonaro. Os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio fugiram preventivamente, enquanto ainda eram investigados no inquérito que apura a existência de uma milícia digital organizada no Palácio do Planalto. Até hoje não foram condenados, mas mandados de prisão contra eles seguem em aberto.

A investigação, iniciada em março de 2019, apura a disseminação de notícias falsas contra ministros da Suprema Corte. O ministro Alexandre de Moraes foi designado pelo colega Dias Toffoli para ficar com o caso e acabou assumindo, por prevenção, diversos outros processos que estavam interligados direta ou indiretamente ao grupo responsável pelas notícias falsas.

Na lista de condenados pela barbárie do 8 de janeiro de 2023 há dezenas pessoas que fugiram para a Argentina, na esperança de serem acolhidas pelo governo de Javier Milei, simpatizante de Bolsonaro. Mas muitos dos que foram encontrados terminaram presos e aguardam processos de extradição.

A sistemática da fuga não tem a mesma eficácia para todos que vestem camisa da Seleção, defendiam o tarifaço e atacam ministros do Supremo.