A Polícia Federal apontou indícios de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liderava um grupo encarregado de monitorar adversários, coletar informações sigilosas e intimidar críticos de forma violenta, inclusive jornalistas. Esses casos embasaram a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, de autorizar a nova fase da Operação Compliance Zero nesta quarta-feira (4).

Segundo a PF, esse grupo operava por meio de uma estrutura informal dedicada à vigilância de pessoas consideradas prejudiciais aos interesses de Vorcaro e do Banco Master. Seus integrantes e Vorcaro se comunicavam em um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”.

Segundo a PF, a coordenação operacional dessas atividades ficava a cargo de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas comunicações como “Felipe Mourão” e chamado de “Sicário”. Ele mantinha relação direta com Vorcaro e seria responsável por organizar equipes encarregadas de levantar informações sobre pessoas consideradas de interesse da organização.

O despacho de Mendonça (leia a íntegra no fim do texto) menciona ainda que Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva faziam consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, utilizando credenciais funcionais pertencentes a terceiros. Esse método permitiu a obtenção de informações protegidas por sigilo institucional em bases de dados da PF, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol.

Além da coleta de dados, as investigações indicam a realização de monitoramento presencial e acompanhamento de pessoas consideradas adversárias. Mourão coordenava diligências destinadas à identificação, localização e vigilância de indivíduos que mantinham relação com investigações ou que haviam publicado críticas ao grupo.

O despacho cita trocas de mensagens de WhatsApp entre Vorcaro e Mourão. Em uma das conversas, Mourão comenta sobre o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, e pergunta: “Esse Lauro Jardim bate cartão todo domingo?”. Em seguida acrescenta: “Cara escroto.” Vorcaro responde: “Sim”. Mourão então sugere: “Lanço uma nova sua? Positiva”. Na sequência, Vorcaro afirma: “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.” Mourão responde: “Vou fazer isto.”

Em outra troca de mensagens, Vorcaro menciona diretamente a possibilidade de simular um assalto para agredir Lauro Jardim. “Esse lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.” Mourão responde: “Estamos em cima de todos os links negativos vamos derrubar todos e vamos soltar positivas.” Em seguida pergunta: “Pode? Vou olhar isso…” Vorcaro responde: “Sim.”

As mensagens também mencionam outras situações de monitoramento de pessoas consideradas problemáticas para o investigado. Em uma conversa citada na decisão, Mourão informa que estava acompanhando um ex-funcionário e pergunta a Vorcaro: “Tem algum telefone alguma coisa assim para monitorar?” Em outro episódio, o grupo discute a possibilidade de mobilizar integrantes da “Turma” para intimidar pessoas que teriam feito gravações envolvendo Vorcaro.

Há ainda diálogos em que Vorcaro pede levantamento de informações sobre uma funcionária que, segundo ele, estaria fazendo ameaças. Na conversa reproduzida na decisão, ele escreve: “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda.” Mourão pergunta: “O que é para fazer?” Vorcaro responde: “Puxa endereço tudo.”

Segundo a investigação, a estrutura responsável por essas atividades recebia pagamentos mensais. Em mensagens citadas na decisão, Mourão afirma que recebia valores repassados por Vorcaro e os distribuía entre integrantes da “Turma”. Em um dos diálogos ele explica: “Ele manda o mensal e eu divido entre a turma.” Em outra conversa, uma funcionária de Vorcaro pergunta: “Vai ser 1 mm como normalmente?” Ele responde: “Sim.” Na sequência, é anexado comprovante de transferência de 1 milhão de reais para uma conta indicada por Mourão.

A PF pediu ao STF a prisão preventiva de Vorcaro, apontado como líder da organização, de Fabiano Campos Zettel, descrito como operador financeiro do grupo, de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão e de Marilson Roseno da Silva.

Ao analisar os pedidos, Mendonça afirmou que os elementos reunidos apontam para a existência de uma organização criminosa estruturada, com divisão de tarefas e capacidade de interferir nas investigações.

O jornal O Globo divulgou uma nota a respeito da descoberta do plano do grupo de Vorcaro para atacar o colunista Lauro Jardim: “O GLOBO repudia veementemente as iniciativas criminosas planejadas contra o colunista Lauro Jardim, um dos mais respeitados jornalistas do país. A ação, como destacado pelo ministro André Mendonça, visava ‘calar a voz da imprensa’, pilar fundamental da democracia. Os envolvidos nessa trama criminosa devem ser investigados e punidos com o rigor da lei. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público.”

Leia a decisão do ministro André Mendonça: