Documentos obtidos pelo Bastidor revelam que o empresário brasileiro Roberto Viana, dono da Petra Energia, usou sua relação com o ministro da Defesa, José Múcio, e com o governo Lula para negociar a venda ao Brasil de petróleo iraniano por meio da Sepehr Energy Jahan, a SEJ, companhia usada pelo regime de Teerã para escapar das sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
As tratativas secretas duraram meses. Além de vender petróleo ao mercado brasileiro, os iranianos queriam uma parceria geopolítica de 25 anos, que envolveria uma aproximação com a Petrobras, a construção de uma refinaria no Maranhão e a compra de aviões da Embraer. As partes chegaram a redigir minutas para exportar petróleo iraniano ao Brasil por meio de empresas de fachada – uma delas sob sanção ocidental. Viana organizou uma viagem sigilosa dos iranianos ao Brasil, com ampla agenda em São Paulo.
As tratativas de Viana com os iranianos encontram-se em e-mails sigilosos trocados por ele e representantes de uma das empresas de fachada montadas pelo governo do Irã para burlar as sanções e exportar o petróleo do país. Os diálogos ocorreram entre setembro de 2023 e março de 2024. Não se sabe se os negócios vingaram.
A aproximação
Os e-mails mostram que a aproximação entre Viana e os iranianos ocorreu antes mesmo de setembro de 2023. A partir daquele mês iniciou-se uma série de ajustes em contrato de venda de petróleo bruto iraniano.
O empresário brasileiro tratou com dois interlocutores: Elyas e Majid, da SEJ e de uma empresa chamada Puyuan Trading, sancionada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Segundo o governo americano, trata-se uma empresa de fachada usada em esquemas do governo iraniano para financiar suas forças armadas. Quem está por trás da Puyuan Trading é a SEJ, o braço econômico das forças militares persas.
Entre 2023 e 2024, a Puyuan chegou a entregar várias cargas de petróleo iraniano na Ásia, segundo os Estados Unidos. Funciona assim: o governo do Irã destina bilhões de dólares em petróleo por ano às suas forças armadas para complementar seus orçamentos e financiar o desenvolvimento de mísseis balísticos e veículos aéreos não tripulados. Parte do dinheiro também abastece grupos terroristas regionais.
Em meio às negociações, em novembro de 2023, Viana convidou um dos interlocutores, Majid, para visitar o Brasil. Ambos se encontrariam em Curaçao, paraíso fiscal no Caribe. O empresário brasileiro, que já estava no país, defendeu a ida do iraniano para “ver uma grande infraestrutura que podemos usar juntos”.
A ideia era que Majid chegasse a Curação em 9 de dezembro de 2023. No dia seguinte, os dois embarcariam para o Brasil.
No Brasil, de acordo com os e-mails, o objetivo era “encontrar algumas pessoas chave”. Mensagem de Viana diz ainda que haveria uma visita a “projeto do complexo petroquímico onde há potencial para cooperação usando petróleo pesado iraniano”.
“Enquanto estivermos juntos no Brasil será possível concluir nosso acordo e assiná-lo”, escreveu o brasileiro.
O encontro não ocorreu naquele fim de 2023. As conversas prosseguiram e novas tentativas de visitas foram tentadas para fevereiro de 2024.
Em janeiro, por exemplo, Majid envia um e-mail para Viana sugerindo um itinerário que contou com o aval de Bagheri da Baniyan, então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, morto por Israel em julho de 2025.
O roteiro da viagem previa: chegada os iranianos no dia 23 de fevereiro de 2024 na Venezuela, embarcando de Teerã. Ficariam na Venezuela nos dias 24 de 25. Deixaria o país a caminho do Brasil no dia 26, onde ficariam até o dia 3 de março.
Viana concorda com as datas. No e-mail seguinte, Majid demonstra preocupação com as sanções. “Para a Venezuela, e devido às sanções, é muito difícil ficar mais tempo, então é melhor diminuir o tempo na Venezuela, é melhor também realizar todas as reuniões no Brasil”, escreveu.
A negociação
O acordo mencionado nos e-mails, na essência, tratava da compra de petróleo bruto iraniano burlando as sanções. O Bastidor teve acesso a contratos e minutas do negócio. As partes discutiram abertamente manobras que dariam aparência de legalidade às transações.
A origem do petróleo, por exemplo, seria alterada. Em vez do Irã, ficaria registrado que o produto saiu dos Emirados Árabes Unidos. O transporte seria feito formalmente em nome da Puyuan Trading, a empresa que meses depois foi sancionada.
Ao menos três minutas de contratos foram debatidas entre o brasileiro e os iranianos. Os documentos revelam os detalhes operacionais do esquema. Os contratos, datados de outubro e novembro de 2023, formalizam a venda entre a Puyuan Trading, no papel de vendedora, e a Atma Oil Investment and Trade Limited como compradora – ambas empresas de Hong Kong.

O acordo previa o fornecimento mensal de 6 milhões de barris de petróleo cru por 24 meses, totalizando 144 milhões de barris ao longo do período contratual.
A primeira remessa seria de 2 milhões de barris como teste, antes do início das entregas regulares.
O petróleo tinha como destino portos brasileiros, principalmente São Sebastião, em São Paulo. A entrega seria no formato CIF (custo, seguro e frete incluídos).
O preço acordado era baseado no Dated Brent – referência internacional para petróleo – com desconto de 11 dólares por barril. Considerando os volumes envolvidos, o negócio movimentaria centenas de milhões de dólares mensalmente.
Os contratos detalham ainda a estrutura para dar aparência de legalidade às operações. A inspeção ficaria a cargo da SGS, empresa suíça de verificação reconhecida internacionalmente. O pagamento seria feito cinco dias após a confirmação da inspeção no porto brasileiro, antes da descarga do navio.
Uma cláusula específica previa a possibilidade de troca do petróleo iraniano por produtos de refinarias brasileiras, mencionando expressamente a Dislub Combustíveis S.A. como parceira autorizada no Brasil. O documento também estabelece que eventuais disputas seriam resolvidas pela lei chinesa.
As discussões prosseguiram por meses. No dia 15 de fevereiro de 2024, Viana envia para Majid um e-mail com os assuntos que tratariam na vinda dos iranianos ao Brasil. O tema principal era o petróleo. Viana classifica como “urgente” a resolução do caso.
O brasileiro reforça que sua empresa assinaria acordo direto com a companhia iraniana, assumindo “100% da responsabilidade pelo lado comprador” enquanto os iranianos ficariam com “o lado do Golfo/fornecedor”.
Viana também previa o engajamento de uma empresa privada brasileira “com registro grande e de longa data” junto à Petrobras. Segundo ele, esta seria “a única maneira de poder vender para a grande empresa brasileira”, mas sua empresa manteria controle “de todo o processo do início à conclusão de cada entrega”.
O esquema envolveria uma manobra para dar aparência legal às transações. A empresa privada brasileira assinaria um acordo de longo prazo com a SOMO – a estatal iraquiana de comercialização de petróleo – obtendo autorização para revenda. “Esta autorização de revenda é também uma condição fundamental para nosso negócio funcionar”, explicou Viana na mensagem.
Por fim, a empresa brasileira venderia o petróleo à Petrobras. O dinheiro passaria por contas cauções em bancos, primeiro da empresa brasileira, depois transferido para conta de Viana e finalmente para os iranianos.
Além do petróleo
As conversas mostram várias tentativas de expansão de negócios entre o Brasil e o Irã. No começo das tratativas, Viana e os iranianos pareciam interessados apenas na venda do petróleo. Em dezembro de 2023, contudo, os iranianos mencionaram que queriam construir uma relação estratégica com o estado brasileiro. Eles ressaltaram que era fundamental tanto uma aproximação com a Petrobras quanto a possibilidade de obter aviões da Embraer. É nesse momento que Viana usava a proximidade com o ministro José Múcio nas negociações.
Para Majid, Viana escreveu que o “assunto é sensível, mas factível no contexto de irmandade do Brics” e que conversará com o ministro da Defesa. O e-mail foi trocado em 6 de dezembro de 2023. Mais adiante, o brasileiro afirma que, com relação à Defesa, “há uma grande oportunidade, mas precisa ser discutida apenas cara a cara”.
Majid escreveu que o “objetivo é explorar meticulosamente o potencial para estabelecer um acordo abrangente de cooperação de 25 anos entre ambas as nações”. Viana respondeu que definiriam juntos “de forma consistente, segura e sustentável, no contexto da nossa irmandade Brics”.
Além do petróleo e da cooperação militar, falariam da construção de uma refinaria no Maranhão e discutiriam um sistema de troca de aeronaves da Embraer.
Nesses e-mails, não são detalhados os termos dos possíveis acordos. Viana responde, no dia 17 de fevereiro de 2024, que “discutiremos enquanto estiverem aqui; tenho uma alternativa que pode funcionar” quando questionado sobre uma cooperação econômica e militar entre os países.
Outro lado
O Bastidor procurou na terça-feira (26) Roberto Viana e perguntou sobre o conteúdo das mensagens. Por telefone, o empresário disse não ter contato com Múcio desde que o ministro era deputado federal. Repetiu que há anos não fala com o titular da Defesa. Disse ainda que os e-mails podem ter sido alterados. Comentou que há pessoas que querem prejudicá-lo.
O empresário, no entanto, não explicou como o número de telefone dele constava nas mensagens. Confirmou que o endereço de e-mail citado pertence a ele mesmo.
À reportagem, Viana disse que tem boa relação com iranianos com quem estudou na época da faculdade. Admitiu que defendeu publicamente anos atrás a construção de uma refinaria no Maranhão, mas que deixou a ideia de lado por volta de 2016 e logo após a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018.
Em nota, o Ministério da Defesa afirma que “o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, conhece Roberto Viana de Pernambuco, mas há mais de 25 anos não tem contato com ele. O ministro desconhecia o uso do seu nome em emails e repudia que isso tenha sido feito”.
O Bastidor não conseguiu contato com a Dislub Energia.
Viana acumula problemas em seus negócios. Ele criou a Petra Energia, que hoje é alvo da Advocacia-Geral da União e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o Carf. Pernambucano, tinha proximidade com o ex-governador Eduardo Campos. Nos anos 1990, foi secretário de governo do estado.
Nota atualizada às 10h40 de 28 de agosto para incluir manifestação do Ministério da Defesa.
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