A fintech Tycoon, conhecida no mercado como Zeit Bank, foi autorizada a operar transferências via Pix conectada diretamente ao sistema do Banco Central. Trata-se de uma espécie de subida de patamar dentro do sistema de pagamentos. Seria um caso meramente burocrático, não tivesse a Tycoon sido alvo da operação Tank, da Polícia Federal, no fim de agosto, que desbaratou um esquema pelo qual o PCC (Primeiro Comando da Capital) lavava dinheiro de fraudes e sonegação no setor de combustíveis.
Quando a operação foi deflagrada, a fintech estava um degrau abaixo no sistema, operava no modelo de Pix indireto. Na prática, precisava que outra empresa, uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central e ligada diretamente ao sistema do pix, processasse suas transferências. No caso, a liquidação das operações da Tycoon era feita pela SulCredi, cooperativa de crédito de Santa Catarina, como mostrou o Bastidor. No dia seguinte à operação Tank, em 29 de agosto, a SulCredi rescindiu o contrato com a Tycoon.
Na denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) do Paraná, a Tycoon é descrita como uma instituição criada para “funcionar como um banco à disposição do crime organizado”. Mesmo assim, foi elevada de patamar. O Banco Central permite agora que a fintech tenha acesso direto ao sistema do pix, o que facilita muito seu trabalho.
Quando ocorreu a operação Tank, em agosto, a fintech já tinha iniciado o processo para poder conectar-se diretamente ao sistema do BC. As informações sobre quando foi iniciado o processo são consideradas sigilosas, mas pelas conexões em registros públicos é possível saber que a Tycoon foi autorizada a movimentar na nova modalidade de transferência de Pix após a operação da PF.
O modelo de Pix direto exige das instituições financeiras controles mais rígidos de prevenção à lavagem de dinheiro e de fraudes – além de um capital social superior ao de 5 milhões de reais e mais de 500 mil reais em contas ativas.
O Bastidor procurou o Banco Central às 12h de quarta-feira (17) e questionou sobre quando a Tycoon iniciou o processo para operar diretamente no sistema pix, quando foi autorizada e se as investigações da Polícia Federal e a denúncia do Ministério Público Federal foram levadas em conta. Na quinta-feira (18), às 14h, o BC afirmou que não iria se pronunciar.
Segundo as investigações da PF, a Tycoon foi utilizada para receber grandes volumes de dinheiro em espécie, para operar um esquema de lavagem. A operação Tank mirou um grupo criminoso com atuação no Paraná, ligado a Mohamad Hussein, dono da Copape, apontado como líder do esquema do PCC no setor de combustíveis.
Rafael Bronzatti Belon, dono da Tycoon, foi denunciado pelo MPF em novembro, junto com outras 18 pessoas, pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. Nos registros atuais do Banco Central, o nome de Belon não consta mais no quadro societário da Tycoon. Karisa Marcondes da Silva, diretora de compliance da fintech, segue nos registros. Ela também foi denunciada pelo MPF por gestão fraudulenta em instituição financeira.
Em nota enviada ao Bastidor, a defesa da Tycoon afirma que foi brutalmente afetada por medida judicial e que o exercício de atividade econômica não foi proibido. Afirmou ainda que saída de Belon ocorreu para impedir que a empresa fosse totalmente paralisada. Clique aqui para ler a íntegra da manifestação.

