Em recuperação extrajudicial, a Raízen fechou o ano-safra 2025/26 com prejuízo consolidado de 27,1 bilhões de reais, mais de seis vezes a perda de 4,2 bilhões de reais registrada no período anterior. O tamanho do rombo levou a PwC, auditoria independente, a fazer um alerta sobre a capacidade da empresa de seguir funcionando normalmente.

A auditoria aprovou as demonstrações financeiras sem ressalvas, mas afirmou que há uma incerteza relevante sobre a continuidade operacional da Raízen. Em linguagem direta, a PwC afirma que a Raízen depende do sucesso da renegociação de suas dívidas para seguir funcionando.

A situação é grave na joint-venture criada pela Shell e a Cosan. A Raízen encerrou março com mais obrigações de curto prazo do que recursos disponíveis para pagá-las. A diferença chegou a 51,2 bilhões de reais no consolidado. A empresa também fechou o exercício com patrimônio líquido negativo de 8,3 bilhões de reais, o que significa que, pelo balanço, que suas dívidas superaram o valor de seus ativos.

Nas demonstrações financeiras, a Raízen atribui o prejuízo a uma combinação de baixas contábeis bilionárias, aumento do custo da dívida e piora dos negócios de etanol, açúcar e bioenergia e da operação argentina. O maior impacto veio de 22,5 bilhões de reais em provisões sem efeito caixa, ligadas a ativos que a empresa passou a considerar de difícil recuperação.

O desempenho operacional também piorou. A receita líquida caiu 11,5%, para 225,8 bilhões de reais. O Ebitda, indicador usado para medir a geração de caixa operacional, despencou 92%, de 13,7 bilhões de reais para 1,1 bilhão de reais. A despesa financeira líquida chegou a 11,9 bilhões de reais, pressionada pelo aumento da dívida e dos juros.

Para tentar aliviar a crise, a Raízen diz ter cortado custos, reduzido investimentos e iniciado a venda de ativos. Depois do fechamento do exercício, a companhia assinou contrato para vender sua operação de downstream na Argentina para empresas controladas pela Mercuria Energy Group. A transação foi estimada em 1,42 bilhão de dólares, ainda sujeita a ajustes e aprovações.

A recuperação extrajudicial é a principal tentativa da empresa de reorganizar essa dívida. Diferentemente da recuperação judicial, esse tipo de processo é construído primeiro em negociação com os credores e depois levado à Justiça para homologação. Na prática, a Raízen tenta obter proteção judicial para reestruturar suas dívidas financeiras sem interromper as operações.

O pedido foi protocolado em 10 de março. No dia seguinte, a Justiça de São Paulo aceitou o processamento do caso e suspendeu por 180 dias ações e cobranças contra a empresa relacionadas às dívidas incluídas no plano. A decisão também deu prazo de 90 dias para a companhia demonstrar apoio suficiente dos credores.

Segundo a Raízen, a recuperação extrajudicial não envolve dívidas com clientes, fornecedores, revendedores, empregados e demais parceiros operacionais. A empresa diz que esses pagamentos seguem fora do plano e continuam sendo feitos normalmente.

Em junho, a companhia informou ter apresentado o plano de recuperação e obtido adesão de credores que representam 80,15% dos créditos abrangidos. O plano, porém, ainda dependia de homologação judicial e do cumprimento de condições previstas na reestruturação.

A renegociação vai além do alongamento da dívida. Como mostrou o Bastidor, o plano pode transferir o comando da Raízen aos credores. A proposta prevê que o conselho de administração passe a ter sete integrantes, dos quais quatro serão indicados pelos credores, incluindo o presidente. Os três assentos restantes ficarão com Shell e Cosan. Na prática, os credores assumirão o controle da companhia.

A mudança atinge diretamente Rubens Ometto, dono da Cosan e presidente do conselho da Raízen desde a criação da empresa. Sua saída do comando do conselho virou uma das principais exigências dos credores para aprovar o plano. A proposta também prevê a conversão de parte da dívida em ações e um aporte de 3,5 bilhões de reais pela Shell.

Confira a íntegra do resultado da Raízen: