A Raízen, controlada pela Shell e Cosan, protocolou na noite desta terça-feira (10) um pedido de recuperação extrajudicial no Tribunal de Justiça de São Paulo após enfrentar dificuldades para administrar um endividamento de 72 bilhões de reais.
A ação ocorre após credores da companhia manifestarem descontentamento com a proposta apresentada por Shell e Cosan para reestruturar a dívida. Como noticiou o Bastidor, a Raízen chegou a anunciar que seus controladores têm intenção de injetar 4 bilhões de reais na empresa: 3,5 bilhões pela Shell e outro de 500 milhões por Rubens Ometto, dono da Cosan.
A nova etapa da saga da Raízen para controlar uma dívida extraordinária e inédita no setor esconde o fracasso da visão estratégica de Ometto nos últimos anos, assim como a incapacidade operacional de manejar a gestão dos serviços dessas dívidas. A aventura de Ometto na Vale custará caro aos credores, apesar das promessas em contrário nos últimos anos. Há uma ampla lista de apostas equivocadas em biocombustíveis, novas gerações de etanol e toda sorte de investimentos em plantas que não deram resultado.
A saída para uma dívida impagável passa pela proteção da Justiça para uma renegociação mais vantajosa com os credores. Mas passa também pela busca de apoio junto ao governo Lula, o que não consta nos comunicados das empresas envolvidas.
O plano apresentado hoje já conta com a adesão de credores que representam cerca de 40% da dívida total. Pela legislação brasileira, a empresa terá até 90 dias para obter o apoio da maioria necessária para que o acordo seja homologado. Caso avance, o processo pode se tornar a maior recuperação extrajudicial já registrada no país.
A proposta envolve aproximadamente 65 bilhões de reais em débitos financeiros. Está prevista a suspensão temporária do pagamento de juros por um período de 90 dias a partir desta quarta-feira (11). Durante esse prazo, a empresa pretende negociar com os credores os termos finais da reestruturação.
Entre as alternativas em discussão estão o alongamento dos prazos de pagamento, a conversão de parte das dívidas em participação acionária e eventuais reduções no valor devido.
Grande parte da dívida está distribuída entre grandes bancos brasileiros e investidores do mercado de capitais. Metade do montante pertence a instituições financeiras, outra parte está nas mãos de detentores de títulos, debêntures e CRAs, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio.
Nas tratativas com credores, a companhia avalia converter aproximadamente 40% da dívida em participação acionária, numa tentativa de reduzir sua alavancagem. Atualmente, a relação entre dívida líquida e Ebitda gira em torno de 5,3 vezes com dívida líquida total de 55,3 bilhões de reais.
A Raízen, em dezembro, informou possuir 17,3 bilhões em caixa. O pedido de recuperação extrajudicial não inclui compromissos operacionais da empresa, como pagamentos a fornecedores.
A Raízen é assessorada pelo escritório E. Munhoz Advogados e pela consultoria financeira Rothschild & Co.

