O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi surpreendido pela sugestão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de indicar Guilherme Mello para uma das duas diretorias vagas na instituição. Galípolo não foi consultado sobre a indicação.

A indicação de Mello foi publicada pela agência Bloomberg durante o fim de semana e confirmada pelo Ministério da Fazenda. Haddad levou o nome de Mello ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem cabe indicar formalmente diretores do BC. Os indicados precisam passar por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e serem aprovados pelo plenário.

A possível indicação não agradou agentes do mercado financeiro. Nesta segunda-feira (2), os juros futuros indicaram alta, num movimento que reflete apreensão com a chance de Mello assumir uma diretoria no Banco Central.

Uma das vagas abertas no Banco Central é na Diretoria de Política Econômica, responsável por fornecer o embasamento técnico das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic e atuar na comunicação da política monetária. A vaga é na Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e Resolução.

O temor se deve ao perfil de Mello. Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, ele é doutor em Ciência Econômica pela Unicamp, tem perfil heterodoxo e é crítico dos juros elevados. É próximo de economistas como Ricardo Carneiro e Luiz Gonzaga Belluzzo. Em sua tese de doutorado, analisou, sob a ótica marxista, o papel dos derivativos de crédito na transformação do capitalismo e na crise financeira de 2007-2008.

Para parte do mercado, a indicação é vista como uma interferência direta do governo para colocar no BC alguém que trabalharia para forçar uma redução artificial da taxa de juros. Na sua última reunião, na semana passada, o BC manteve a Selic em 15% ao ano, mas indicou a retomada da redução em março.

Interlocutores de Galípolo afirmam que a possível indicação de Mello pode retardar esse processo, pois as reduções seriam vistas pelo mercado como se o BC independente estivesse alinhado ao governo.

Galípolo mantém boa relação pessoal com Mello. Ambos cursaram mestrado na PUC-SP e trabalharam na campanha de Lula em 2022. Ao chegar à presidência do BC, Galípolo também enfrentou certo ceticismo do mercado sobre sua independência. Superou isso ao manter o direcionamento de elevação dos juros até junho passado.

Em qualquer uma das funções, Mello teria assento no Copom e passaria a representar uma voz heterodoxa nas decisões de política monetária.