A gestora carioca Charles River se articula para barrar a indicação do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, ao conselho de administração da Tupy. Na semana passada, o BNDES indicou Múcio e o secretário-executivo da Secom, Tiago Cesar dos Santos, para cargos na metalúrgica.

A nomeação foi alvo de críticas dentro do colegiado. O conselheiro Mauro Rodrigues da Cunha afirmou que o governo Lula, por meio do BNDES, faz uma indicação política “em prejuízo de uma companhia de capital privado negociada na B3, com milhares de acionistas”.

As indicações ocorreram após a renúncia de Márcio Spata, funcionário de carreira do BNDES, que ocupava a cadeira agora destinada a Múcio. A Tupy também comunicou a saída de Marcos Motta do conselho fiscal – outro empregado de carreira do banco. Para o lugar de Motta, o banco comandado por Aloizio Mercadante indicou Tiago Cesar. Formado em administração e com mestrado na área, ele é o número dois do ministro-chefe da Secom, Sidônio Palmeira.

Não é a primeira vez que o banco troca técnicos por nomes ligados ao governo na Tupy. Em 2023, o BNDES indicou a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e o então ministro da Previdência, Carlos Lupi, para o conselho de administração. Na época, a remuneração mensal do cargo era de 36,1 mil reais.

Mudança no estatuto

Com 4,46% das ações da Tupy, a Charles River pediu na quarta-feira (24) a convocação de uma assembleia para votar mudanças no estatuto. A gestora quer endurecer critérios de elegibilidade para impedir indicações com perfil político.

A proposta prevê que diretores e conselheiros não possam ter ocupado, nos últimos cinco anos, cargos públicos de natureza política, de alta direção ou de livre nomeação – exceto quando se tratar de servidores concursados. Também proíbe a indicação de pessoas que, no mesmo período, tenham integrado estruturas decisórias de partidos, participado de campanhas eleitorais, exercido mandatos no Legislativo ou no Executivo ou ocupado cargos de confiança no Poder Executivo, com a mesma ressalva para concursados.

A gestora pede que as mudanças sejam analisadas antes da votação de Múcio e Tiago Cesar. Ao mesmo tempo, solicitou a lista de acionistas da companhia, sinalizando que pretende buscar apoio para barrar as indicações do BNDES.

A tarefa, no entanto, é considerada difícil. O BNDES é o maior acionista da Tupy, com 30,69% do capital, seguido pela Previ, fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, com 27,02%. Juntos, somam 57,72% das ações.

Em outra frente, Mauro Rodrigues da Cunha afirmou que fará uma denúncia à Comissão de Valores Mobiliários. O BNDES, em nota, afirmou que “a indicação de lideranças dos setores público e privado para conselhos de administração das investidas da BNDESPar busca levar experiência às instâncias estratégicas dessas empresas, em seu melhor interesse, sem descuidar dos interesses do BNDES e do seu controlador”.

Leia a íntegra da nota do BNDES enviada ao Bastidor: