O Ministério Público do Paraguai determinou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes do Ueno Bank na terça-feira (3), um dia após o Banco Central do país iniciar o processo de resolução da instituição. Alguns executivos foram detidos pela manhã, mas a última prisão só foi confirmada pelo MP paraguaio no fim da noite.

Entre os detidos estão Juan Manuel Gustale Cardoni, presidente do banco, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador e primeiro vice-presidente do conselho de administração. Eles são investigados por suspeitas de crimes financeiros identificados após uma fiscalização do órgão regulador.

O fechamento do Ueno provoca protestos de correntistas no Paraguai e problemas no comércio. Parte significativa das grandes empresas varejistas paraguaias mantinha contas no banco digital.

O Ministério Público investiga possíveis crimes de lesão de confiança, estelionato e conduta indevida em situações de crise financeira. As suspeitas envolvem prejuízos causados por quem administra recursos de terceiros, fraudes para obter vantagens financeiras e práticas como ocultação de patrimônio ou manipulação de balanços em situações de insolvência. A Promotoria ainda avalia se há elementos suficientes para apresentar acusações formais contra os investigados.

Segundo o promotor Francisco Cabrera, a investigação começou após uma denúncia apresentada pelo BC do Paraguai. O documento tem cerca de 200 páginas e, com os anexos, chega a aproximadamente 2.000 páginas. As prisões foram determinadas para garantir a presença dos investigados no processo, diante de informações de que alguns deles poderiam deixar o país. Nesta quarta-feira (4), os oito foram levados à Promotoria para prestar depoimentos.

A intervenção no Ueno foi motivada por empréstimos suspeitos a empresas ligadas aos controladores do banco e por falhas na documentação das operações financeiras.

A fiscalização também identificou registros de serviços de informática sem justificativa suficiente. Após ajustes no balanço, o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei, levando o Banco Central a iniciar o procedimento de resolução na segunda-feira (2).

Em meio à crise, o presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, anunciou sua renúncia na terça-feira. Ele havia comandado a Financiera Ueno, antecessora do banco, antes de assumir o órgão regulador, em 2023. A autoridade monetária afirma que Carvallo se declarou impedido de participar das decisões relacionadas à instituição.

A crise envolve ainda recursos da Itaipu Binacional. Em outubro, o jornal paraguaio ABC Color informou, com base em dados divulgados pela própria hidrelétrica, que a empresa manteve no Ueno saldos médios de 49,8 milhões de dólares e 27,7 bilhões de guaranis entre 2023 e 2026. Os valores representavam, respectivamente, 24,10% e 15,48% dos recursos da Itaipu nessas moedas depositados em bancos paraguaios.

Procurada pelo Bastidor, a Itaipu afirmou que não há recursos financeiros da margem brasileira depositados no Ueno Bank. “As aplicações financeiras estão fundamentadas nos normativos da Entidade, cabendo à cada margem definir a destinação desses recursos, nos termos de suas competências e prerrogativas”, informou a binacional.

A reportagem também procurou a margem paraguaia da Itaipu, mas não obteve resposta. Os dados divulgados anteriormente correspondem a saldos médios históricos e não permitem determinar quanto dinheiro a binacional mantinha no Ueno na data da intervenção, nem se há recursos bloqueados ou sob risco de perda.