O quarto mandato de Lula tem tudo para ser o mais difícil dele. Começará sob o peso de desafios inéditos e de incertezas hostis ao otimismo próprio de uma vitória eleitoral expressiva. Se Lula deseja mesmo entregar ao seu sucessor um Brasil melhor do que encontrou, precisará evitar erros cometidos na gestão anterior e, sobretudo, compreender o que os brasileiros esperam dele.
Sua vitória veio acompanhada de uma expectativa de mudanças. Também foi impulsionada pelo receio de parte do eleitorado diante da possibilidade de retorno da direita ao poder, em meio às controvérsias e suspeitas envolvendo setores desse campo político. O mercado leu o resultado de outro modo. No dia seguinte ao segundo turno, a bolsa caiu quase 14% e as negociações foram interrompidas, algo que não acontecia desde a pandemia, e o dólar teve a maior alta diária desde 1999. Lula gosta de dizer que não governa para o mercado. Ninguém pediu isso a ele. Mas seria sábio ler esses fatos como um sinal do que o governo petista faria bem em considerar para, no mínimo, aperfeiçoar a condução da economia.
De volta à mesa
Para aliados próximos, a resposta começa por uma volta às origens. Lula precisa recuperar a capacidade de articulação política que marcou seu primeiro mandato. Naquela época, sentava-se à mesa com diferentes forças do Congresso, negociava diretamente, administrava conflitos e resolvia impasses olho no olho. Era essa habilidade de construir pontes mesmo com adversários que fazia dele um articulador político singular.
Isso exigirá muito do presidente e de seus articuladores. O Diap, departamento de assessoria parlamentar dos sindicatos, conta 124 deputados fiéis ao governo na Câmara eleita, a menor base de um presidente desde 1990, e 246 que dependem de negociação caso a caso. No Senado, a oposição tem 34 cadeiras, o bastante para barrar qualquer emenda à Constituição. Em 2003, a reforma da Previdência passou no primeiro turno da Câmara com 358 votos. O ponto de partida de 2027 está longe disso.
No atual mandato, a capacidade de articulação perdeu força. Aliados atribuem parte desse distanciamento à influência da primeira-dama, Janja, que passou a ocupar um espaço considerado excessivo por alguns interlocutores do governo. Sua intromissão em diferentes áreas, especialmente na comunicação, incluindo relatos de interferência em indicações para cargos, tornou-se motivo de desconforto político. A presença de Janja não explica tudo, mas indica como Lula se permitiu deixar de fazer política. Nunca há vácuo no Planalto. Lula precisa retomar o protagonismo das decisões e permitir que a primeira-dama exerça apenas seu papel institucional.
O tamanho da conta
Recuperar a articulação política será apenas parte do desafio. A economia deverá ocupar o centro das prioridades, e os números das contas públicas mostram a gravidade do cenário que Lula encontrará em janeiro.
A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em setembro, contra 78,6% em dezembro do ano passado, e sobe por causa dos juros. A Instituição Fiscal Independente do Senado calcula que estabilizar a dívida exige um ajuste de algo como três pontos do PIB, cerca de 440 bilhões de reais por ano. As promessas da reta final da campanha entram nessa conta. Pelo cálculo do próprio governo, elas podem custar até 53,6 bilhões de reais só em 2027, entre elas a tarifa zero no transporte público nos fins de semana e o Pé-de-Meia universitário. Lula disse, em 1º de novembro, que “nenhum programa social será extinto neste país” e que tudo o que foi prometido “vai acontecer”. É uma escolha legítima de quem venceu a eleição. Mas ela define o problema: com as promessas mantidas, o que o presidente pode fazer sozinho, por decreto e pela execução do Orçamento, é pouco e quase sempre pontual. O resto passa pelo Congresso que ele terá de reconquistar.
A escolha de um nome para a Fazenda capaz de transmitir confiança ao mercado, sem comprometer os compromissos sociais do governo, poderá ser um primeiro sinal importante. Lula deixou a decisão para depois da viagem à Turquia e às Filipinas, de 9 a 16 de novembro, e se recusou a antecipar o nome como gesto ao mercado. Por ora, o governo fala em duas vozes. O ministro Dario Durigan diz que vai mudar a lei, ou a Constituição se preciso, para mirar o centro da meta fiscal, e a equipe econômica estuda tornar permanentes os cortes automáticos de gastos que a lei hoje só aciona quando a meta é descumprida. O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, escreveu nas redes sociais que “o Tesouraço foi derrotado nas urnas”. Lula não arbitrou em público. Mais do que discursos, o governo precisará demonstrar responsabilidade com as contas públicas.
A primeira prova vem antes da posse. O Orçamento de 2027 conta com a receita do Imposto Seletivo, criado pela reforma tributária para cigarros, bebidas e outros produtos nocivos, mas o governo deixou passar o prazo de 2 de outubro para editar a medida provisória que fixa as alíquotas, por temer desgaste na campanha. A Fazenda promete editá-la nesta quarta-feira, com cobrança só a partir de fevereiro. Pela Constituição, a medida só produz efeito em 2027 se virar lei até 31 de dezembro. Estará entre os últimos votos do Congresso atual sobre o dinheiro do próximo governo.
O recado de quem produz
O ajuste fiscal, entretanto, não será suficiente. Será necessário rever escolhas da política econômica, especialmente a estratégia de aumento da arrecadação por meio de novos tributos e da elevação da carga sobre determinados setores produtivos. Essa fórmula não deu certo em Lula 3. Em Lula 4, ela sufocará economicamente o país.
Essa estratégia também rendeu menos do que se anunciou. A tributação de dividendos, criada para compensar a isenção do Imposto de Renda até cinco mil reais, tinha previsão de quase 30 bilhões de reais em 2026 e arrecadou 5,3 bilhões até setembro. Existe outro caminho, apontado de lados opostos, de Armínio Fraga ao presidente do PT, Edinho Silva: os benefícios tributários federais são estimados em 4,4% do PIB no Orçamento de 2026, e revisá-los dispensa imposto novo. O preço é enfrentar quem os recebe.
O descontentamento de empresários e empreendedores com a política tributária é um sinal que merece atenção. Na avaliação de críticos do governo, essa insatisfação também teve reflexos eleitorais. Ignorar o debate com quem produz seria desperdiçar uma oportunidade de corrigir rumos e reconstruir a confiança de quem investe e gera empregos.
Governar para todos
Lula terá pela frente o desafio de conciliar responsabilidade fiscal, crescimento econômico e compromisso social. Não será uma tarefa simples. Exigirá escolhas políticas claras, capacidade de negociação e disposição para contrariar interesses, inclusive dentro do próprio governo.
Sua vitória nas urnas foi expressiva e carregada de simbolismo. Mas vencer uma eleição, por mais importante que seja, não garante um lugar de destaque na história. Se quiser encerrar sua trajetória política deixando uma marca duradoura, Lula precisará mostrar que ainda sabe fazer aquilo que o levou ao poder pela primeira vez: dialogar, construir consensos e governar para todos os brasileiros, inclusive para aqueles que não votaram nele.