Lula e Flávio Bolsonaro concordaram em pelo menos uma coisa no debate da Band, no domingo, 18: era melhor cada um ficar no seu canto. O senador convidou o presidente a se aproximar. Lula recusou: queria “distância de miliciano”. Flávio disse que era mais prudente ficar longe: sua carteira podia ser roubada. O eleitor não terá a mesma liberdade. Está condenado a quatro anos na companhia de um dos dois.

A corrupção foi tratada, a certa altura, como um problema de ortografia. Flávio pediu que Lula escrevesse “corrupto” para encontrar as letras PT no meio da palavra. Quando o assunto chegou a Daniel Vorcaro, havia perguntas melhores. Lula cobrou o dinheiro para o filme de Jair Bolsonaro; Flávio, a reunião do presidente com o banqueiro no Planalto. O dinheiro do filme não explica a reunião no Planalto. A reunião não explica o dinheiro do filme. Mas a troca oferecia aos dois uma vantagem: podiam exigir explicações sem esclarecer o que lhes cabia.

Houve promessas para o futuro, inclusive um Ministério da Prosperidade. Para o presente, as exigências eram mais modestas. Nas considerações finais, entre gritos, risadas e assobios da plateia, Adriana Araújo pediu silêncio. A mediadora também precisou pedir a Flávio que parasse de circular atrás de Lula enquanto o presidente falava.

Quem ligou a televisão para ver seu candidato insultar o outro teve o que procurava. Os cortes permitirão repetir a experiência até o próximo debate. Quem desconfia dos dois encontrou pouco que contrariasse suas suspeitas. Lula e Flávio falaram para quem já os escolheu e ofereceram aos demais o mal menor. Isso não serve igualmente aos dois: a situação atual favorece Flávio. É Lula quem mais precisa convencer eleitores que escolheram o adversário ou ficaram em casa. A distância que Lula precisava encurtar era outra.