O Brasil que sai das urnas neste domingo expõe a força da direita e coloca Flávio Bolsonaro como favorito para chegar ao Planalto. Com 99,97% das urnas apuradas, o senador do PL tinha 56,1 milhões de votos, e Lula, 53,9 milhões. Em percentuais, 47,04% para Flávio e 45,15% para Lula.
O avanço da direita na política não surpreende. Começou em 2018 e se ampliou em 2022. Nos anos seguintes, foi escamoteado pela derrota de Jair Bolsonaro e pela guerra judicial entre o Supremo e a base do ex-presidente. Agora aparece por inteiro. A direita ganha forma de maioria no Senado e leva, já no primeiro turno, os governos de São Paulo, de Minas Gerais e dos três estados do Sul. No Rio, Douglas Ruas (PL) pode vencer também no primeiro turno, a depender do desfecho do caso de Garotinho. O ex-governador concorreu com o registro negado pelo TRE-RJ, que o considerou inelegível pela Lei da Ficha Limpa por uma condenação por improbidade administrativa, e recorreu ao TSE. Sem os votos dele, anulados até o julgamento, Ruas passa de 50%.
A história joga a favor de Flávio. Desde 1989, quem terminou o primeiro turno na frente venceu os sete segundos turnos presidenciais. Antes desta eleição, só uma vez um presidente em exercício havia terminado o primeiro turno atrás. Foi em 2022. Bolsonaro perdeu.
A margem, porém, nunca foi tão estreita. Em 2022, Lula abriu 5,2 pontos no primeiro turno e venceu por 1,8. A vantagem de Flávio agora é de 1,9 ponto. A eleição é dele para perder, com a menor folga desde a redemocratização.
Para chegar a 50%, Flávio precisa de pouco mais de um terço dos votos dados aos demais candidatos, mantida a abstenção. Lula precisa de quase dois terços, ou de eleitores que ficaram em casa. O voto de Ronaldo Caiado é antipetista e conservador. Deve migrar quase inteiro para Flávio. O de Renan Santos também é antipetista, mas o MBL, que o lançou, fez da crítica à família Bolsonaro uma marca. Parte desse voto tende ao nulo ou à abstenção. O de Augusto Cury é o menos ideológico e tende a se dividir.
Minas Gerais reforça o sinal. Desde 1989, quem venceu no estado venceu a eleição. Em 2022, Lula ganhou em Minas no primeiro turno por 4,7 pontos. Agora perde por 4,9. Desta vez, Minas está mais à direita que o país.
A euforia e a caneta
A bancada de direita eleita ao Senado amplia a euforia do campo bolsonarista. Ela tende a ser barulhenta nas redes e expressiva na opinião pública. É também o primeiro risco de Flávio. O bolsonarismo vive mobilizado e age diuturnamente nas redes e nas ruas. Está mais exposto a erros. Flávio precisa manter o campo unido e atravessar três semanas sem errar. Não basta. Ele precisa também assegurar os votos naturalmente seus e ampliá-los. Ou, dito de outra forma, precisa consolidar os votos antipetistas. (A discussão sobre o que são votos do bolsonarismo ou do antipetismo é tão inesgotável quanto a que trata do voto lulista que pode ser apenas antibolsonarista.)
É preciso lembrar que Lula tem a caneta e as armas do governo. Na Quaest feita logo após o anúncio, o reajuste do Bolsa Família não deu a Lula ganho entre os beneficiários. A MP que proibiu as bets foi a aposta mais recente. A PEC que acaba com a escala 6×1 entra na pauta do Senado na terça (6), dois dias depois do primeiro turno. O presidente tem espaço para se mexer. Anunciar e gastar, ou prometer gastar, costumam ajudar.
A outra arma de Lula é o antibolsonarismo. O alvo é quem votou nele no segundo turno de 2022 e hoje hesita. Esse voto nasce do medo de Bolsonaro. A esperança em Lula pesa pouco nele. É um voto que está no Sudeste, provavelmente alvo principal de Lula no segundo turno.
No dia 25, vence o sentimento mais forte: impedir a permanência de Lula e da esquerda no poder ou impedir o retorno da família Bolsonaro e da direita. A margem é mais estreita para o primeiro sentimento.
Os tribunais
O caso Master ainda pode render desgaste. O principal tiro, porém, era o Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro que Flávio pediu a Daniel Vorcaro para financiar. O estrago já foi feito. Flávio perdeu terreno nas pesquisas depois das revelações, recuperou-se e terminou o primeiro turno na frente. O escândalo não decidiu a eleição presidencial.
As canetas dos ministros do Supremo, contudo, não podem ser negligenciadas. Elas alcançam também o TSE, que julga a campanha. Flávio Dino, por exemplo, relata o inquérito sobre suspeita de desvio de emendas parlamentares para financiar o Dark Horse e continua no caso, depois que Fachin rejeitou o pedido de Flávio para afastá-lo. Na sexta (2), Dino defendeu em público as decisões judiciais que mudaram as regras do último debate.
As canetas trabalham nos dois sentidos. As decisões para cada lado são profusas. Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e indicado ao Supremo por Bolsonaro, por exemplo, devolveu Deltan Dallagnol à disputa na manhã deste domingo, horas depois de um colega ligado a Alexandre de Moraes barrá-lo.
O deslocamento de poder para a direita limita a capacidade de ação de quem estiver contra Flávio. Ele se consolida no Senado e se soma à Câmara e a estados relevantes. Com um Senado mais à direita, os pedidos de impeachment de ministros e a eleição do presidente da Casa, em fevereiro, passam a ser armas reais na disputa com o Supremo.
Trump
Donald Trump pode ajudar Flávio se mirar no Supremo, como fez com as sanções a Alexandre de Moraes. Atrapalha bastante se tentar influenciar a eleição com tarifas sobre o Brasil. Há precedente. O tarifaço de julho de 2025 deu a Lula o discurso da soberania e coincidiu com a recuperação de sua aprovação. Lula, que em setembro, em Nova York, disse que Trump age como imperador, tende a explorar qualquer nova tarifa.
O país que elegeu um Senado de direita escolhe, em três semanas, se entrega a ela também o Planalto.