A Oncoclínicas entrou em recuperação extrajudicial para renegociar 5,16 bilhões de reais em dívidas. O processo, porém, vai além da negociação com os credores. A companhia também tenta preservar contratos, retomar uma operação em Recife e impedir que antigos parceiros agravem sua crise.

O pedido foi apresentado com o apoio de credores que representam 37% da dívida incluída no plano. O percentual foi suficiente para iniciar o processo, mas não garante sua homologação. A Onco terá 90 dias para obter a adesão de credores que representem mais da metade dos créditos abrangidos.

Até agora, aderiram ao plano a OPEA Securitizadora, o Santander, o Banco Votorantim e o fundo PCG-Brasil. A maior parte desse apoio está concentrada na OPEA, com cerca de 1,68 bilhão de reais. Outra parcela relevante da dívida pertence aos investidores que compraram debêntures da companhia. No processo, eles são representados pela Pentágono.

A Oncoclínicas já tentava renegociar com esses investidores antes de entrar com a recuperação, como o Bastidor mostrou. Agora, precisa transformar as conversas em adesões formais ao plano.

Enquanto negocia com os credores, a companhia enfrenta uma disputa com a Unimed Recife. A Onco afirma ter investido 280 milhões de reais para assumir, por 30 anos, a operação oncológica da cooperativa. A última parcela, de 61,6 milhões de reais, foi paga em março. Três meses depois, a Unimed obteve uma liminar para assumir diretamente parte dos atendimentos, sob a alegação de uma crise assistencial.

Segundo a Onco, a cooperativa ultrapassou os limites da decisão. Acusa a Unimed de bloquear autorizações, redirecionar pacientes e convidar funcionários da companhia a trabalhar para a própria cooperativa. O processo também menciona mais de 4 milhões de reais em medicamentos sob risco de vencimento e 131 empregos ameaçados. A Onco afirma ainda que a Unimed fez descontos nos repasses e retomou, na prática, uma operação financiada pela companhia.

Outra frente da recuperação envolve os contratos. A Onco pediu à Justiça que suspenda cláusulas que permitam rescisões, descredenciamentos ou cobranças antecipadas em razão da recuperação, de uma situação de insolvência ou do descumprimento de determinadas obrigações.

Se essas cláusulas forem acionadas, a companhia poderá perder contratos, ser descredenciada por planos de saúde e ter dívidas cobradas antes do vencimento. O risco é relevante porque 98% do faturamento da Onco depende das operadoras de saúde. A perda de credenciamentos reduziria justamente o caixa necessário para manter os atendimentos e cumprir o plano.

A Porto Seguro é o exemplo mais claro dessa ameaça. Até recentemente, a empresa negociava uma sociedade com a Onco. Depois do fracasso das conversas, notificou a companhia de que pretendia romper um acordo firmado em 2022. A Porto citou o início da recuperação e apontou falhas na entrega de medicamentos para quimioterapia oral.

A Onco contesta os argumentos e afirma que a operação continuou funcionando depois da notificação. Em poucos meses, a Porto passou de potencial parceira a mais uma fonte de pressão sobre a companhia.

Nos próximos três meses, a Onco terá de convencer a maioria dos credores e, ao mesmo tempo, impedir que esses conflitos esvaziem a operação que sustentaria o pagamento do plano. Em paralelo, acionistas minoritários pressionam a gestora Centaurus a fazer uma oferta pública de aquisição estimada em cerca de 6 bilhões de reais. Com isso, a companhia enfrenta múltiplas frentes de disputa na Justiça e na Comissão de Valores Mobiliários.