A investigação da Polícia Federal sobre a fraude bilionária na Americanas aponta que ao menos dois grandes bancos ajudaram a varejista a esconder informações relevantes dos auditores independentes. Fechado com Santander e Itaú no início de 2017, o acordo permitiu mascarar o real nível da dívida financeira da companhia e consolidou o esquema de resultados fictícios.
A informação foi apresentada por Fábio Abrate, ex-diretor do grupo Americanas, em delação premiada firmada com o Ministério Público Federal e homologada pela Justiça Federal em 2025. O Bastidor teve acesso exclusivo a trechos do depoimento citados pela Polícia Federal no relatório que embasou a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada nesta quinta-feira, 25.
No documento, a PF afirma que o escândalo da Americanas representa “a maior fraude corporativa do Brasil”. “A manipulação contábil perdurou por pelo menos 10 anos e envolveu praticamente toda a estrutura de governança, as maiores instituições financeiras do país e duas das maiores empresas de auditoria independente”, diz o relatório.
Para entender o papel dos bancos no esquema, é preciso antes compreender os dois principais mecanismos da fraude.
O primeiro era a criação de VPCs fictícias, sigla para verbas de propaganda cooperada. No varejo, essas verbas são pagas por fornecedores para bancar a divulgação de produtos em lojas, folhetos e promoções. Na Americanas, segundo a PF, elas passaram a ser inventadas para melhorar artificialmente os resultados.
Quando o desempenho real da companhia não era suficiente para atingir as metas, diretores determinavam o lançamento de verbas inexistentes. Na prática, esses valores reduziam no papel o custo das mercadorias vendidas e inflavam indicadores acompanhados pelo mercado, como margem bruta e Ebitda. O rombo acumulado com VPCs fictícias chegou a 20,6 bilhões de reais.
Para sustentar a fraude, a companhia também produzia documentos falsos. Segundo o relatório, cartas antigas de fornecedores eram alteradas no Word, com troca de datas e valores, salvas em PDF e entregues aos auditores. “Era totalmente amador”, admitiu Marcelo Nunes, outro ex-diretor da Americanas que fechou acordo de delação. Mesmo assim, o método funcionou por mais de uma década.
O segundo mecanismo era o risco sacado, operação em que bancos antecipam pagamentos a fornecedores e depois recebem da empresa, com juros, em prazo maior. Na Americanas, essa dívida com os bancos era registrada como se fosse uma obrigação comum com fornecedores, e não como dívida financeira.
A classificação escondia do mercado o tamanho real do endividamento da companhia. O risco sacado chegou a 14,1 bilhões de reais em 2021. Quando o escândalo veio à tona, a reclassificação necessária para revelar esse montante como dívida financeira foi de 15,9 bilhões de reais. Hoje, o total da fraude da Americanas é estimado em 54,2 bilhões de reais.
As duas frentes se complementavam. As VPCs falsas inflavam artificialmente o resultado. O risco sacado escondia a dívida usada para sustentar o caixa. No balanço, uma fraude ajudava a encobrir a outra.
A PF encontrou indícios de que as fraudes começaram em 2009 e seguiram sem grandes obstáculos até 2016. A partir dali, Santander e Itaú se tornaram peças importantes para manter o esquema de pé.
Em fevereiro daquele ano, a Comissão de Valores Mobiliários publicou um ofício sobre operações de risco sacado. A CVM alertava que essas operações não poderiam ser avaliadas apenas pelo nome ou pelo formato usado no contrato. O que importava era a realidade da transação. Se, na prática, o banco estava financiando a empresa compradora, a dívida precisava aparecer no balanço como dívida financeira, com juros e encargos registrados no resultado. Para a CVM, esconder essa natureza da operação distorcia as informações apresentadas ao mercado e era irregular.
A orientação criou um problema para a Americanas. Segundo diz Abrate na delação, as cartas de circularização dos bancos, até então tratadas como uma etapa simples da auditoria, passaram a ser um ponto sensível. Essas cartas eram usadas pelos auditores para confirmar diretamente com as instituições financeiras as dívidas, aplicações e outros ativos e passivos existentes entre os bancos e a companhia.
Se os bancos informassem o risco sacado como dívida financeira, os auditores teriam acesso ao endividamento que a Americanas mantinha fora dessa classificação no balanço. A fraude ficaria exposta.
Na auditoria de 2015, realizada no início de 2016, o tema ainda era novo. Segundo Abrate, nem a companhia, nem os auditores, nem os bancos tiveram tempo para discutir em profundidade como o risco sacado seria informado nas circularizações e contabilizado.
No ano seguinte, para a auditoria referente ao exercício de 2016, a questão se tornou inevitável. Abrate, então diretor de Relações com Investidores da B2W, controlada pela Americanas, foi designado para conversar com os bancos. Ele foi escolhido, segundo seu próprio relato, porque era o executivo com melhor interlocução com as instituições financeiras.
A missão era saber como os bancos classificariam o risco sacado nas cartas enviadas aos auditores. Abrate levou a Santander e Itaú a posição da companhia: a Americanas tratava as operações como comerciais e, portanto, defendia que elas ficassem fora das cartas de circularização.
O argumento financeiro também foi colocado na mesa. Abrate afirma na delação que informou aos bancos que, se os valores do risco sacado fossem apresentados aos auditores como dívida financeira, a Americanas deixaria de usar o produto. A razão era simples: o limite de endividamento bancário seria extrapolado e os indicadores financeiros da companhia ficariam muito ruins.
Segundo ele, as primeiras conversas ocorreram com André Juaçaba, no Santander, e Gustavo Balassiano, no Itaú. Nenhum dos dois tinha autonomia para resolver o assunto. A discussão, então, subiu dentro dos bancos.
No Itaú, segundo Abrate, Gustavo Balassiano encaminhou o tema ao diretor José Rudge, que levou a discussão ao Comitê Executivo do banco. O comitê era presidido por Cândido Bracher e tinha a participação dos diretores Alberto Fernandes, André Rodrigues, Eduardo Vassimon e Caio David.
No Santander, André Juaçaba submeteu a questão às esferas competentes. Abrate afirmou acreditar que, como ocorreu no Itaú, o tema foi levado ao Comitê Executivo do Santander, com participação de Jean Pierre, chefe de Juaçaba, de Sérgio Rial, então presidente do banco, e de outros diretores.
A decisão dos dois bancos foi a mesma. Depois das consultas internas, Santander e Itaú informaram a Abrate que concordavam com o entendimento da Americanas. O risco sacado seria tratado como operação comercial e não seria informado nas cartas de circularização, em desacordo com a CVM.
Segundo Abrate, os bancos chegaram a esse entendimento para não perder uma operação que “rendia muito dinheiro”. O risco sacado, afirmou o delator, não era realizado apenas com a Americanas e suas controladas.
A partir daquele momento, as operações de risco sacado deixaram de aparecer nas cartas enviadas aos auditores. Segundo Abrate, o entendimento firmado no início de 2017 seguiu até 2022.
No caso do Santander, a atuação foi além. Segundo Abrate, durante a negociação da redação das cartas de circularização, André Juaçaba pediu que a Americanas alterasse o teor da solicitação de informações enviada ao banco. A mudança permitiu que o Santander respondesse à auditoria sem incluir as operações de risco sacado.
Segundo Abrate, o banco orientou a companhia sobre como redigir a solicitação para que pudesse respondê-la sem inserir essas operações. Naquele dia, o executivo estava em São Paulo e entrou em contato com a sede da Americanas, no Rio de Janeiro, para avisar que uma nova carta de solicitação chegaria do Santander e precisaria ser assinada e reenviada ao banco.
Na prática, segundo a investigação, o Santander não apenas deixou de informar a dívida financeira aos auditores. Também ajudou a moldar o documento usado para manter essa dívida fora do alcance da auditoria independente.
Os demais bancos seguiram o entendimento de Santander e Itaú. A partir de então, as cartas de circularização passaram a ser emitidas sem as informações sobre risco sacado. Para o mercado, o dado deixou de ser transparente.
O papel dos bancos na ocultação do risco sacado não aparece apenas na delação de Fábio Abrate, embora esse seja o relato mais detalhado. A PF também encontrou conversas de WhatsApp e e-mails, localizados em dispositivos apreendidos, que mostram tratativas entre funcionários da Americanas e de instituições financeiras sobre a alteração das cartas de circularização enviadas aos auditores.
As delações de Marcelo Nunes e Flávia Carneiro, ambos ex-diretores, reforçam esse quadro. Nunes relata a reação interna de pânico após a CVM exigir mais transparência sobre o risco sacado, em 2016, e diz que Abrate assumiu a negociação com os bancos. Carneiro descreve as circularizações bancárias como parte da dinâmica da fraude, e não como um episódio isolado.
Esse conjunto de elementos levou a PF a abrir uma frente específica sobre a atuação das instituições financeiras. Na decisão que autorizou buscas contra acionistas de referência da Americanas, a Justiça Federal afirma que mensagens, e-mails e relatórios policiais corroboram as fraudes envolvendo risco sacado, VPCs e cartas de circularização.
Segundo o documento, as comunicações envolveram diretores da Americanas, funcionários de bancos e fornecedores, com o objetivo de submeter documentos à auditoria externa e camuflar a real situação financeira da varejista. O juiz também registrou a participação ativa de representantes de bancos em tratativas para emitir cartas de circularização sem menção a operações creditícias relevantes, como o risco sacado.
A decisão afirma ainda que a apuração não se limita aos interlocutores operacionais dos bancos. Para o juiz, os valores bilionários envolvidos e a necessidade de aprovação interna nas instituições financeiras indicam que operações dessa dimensão não avançavam sem conhecimento de escalões superiores.
O Bastidor procurou o Santander e o Itaú na tarde desta sexta-feira, 26, por meio de suas assessorias de imprensa.
Ao Santander, perguntou se o banco confirma as discussões com a Americanas sobre o tratamento do risco sacado nas cartas de circularização, qual foi a participação de André Juaçaba e Sérgio Rial nas tratativas e com base em qual análise jurídica, contábil ou regulatória a instituição sustentou o entendimento de que as operações deveriam ser tratadas como comerciais. O banco não respondeu até a publicação desta reportagem.
Ao Itaú, perguntou se o banco confirma que o tema foi levado ao Comitê Executivo, qual foi a participação de Gustavo Balassiano, José Rudge e dos integrantes do comitê, com base em qual análise o banco sustentou a classificação do risco sacado como operação comercial e se houve revisão interna desse posicionamento.
Em nota, o Itaú disse que não é investigado e que colabora com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações solicitadas sobre o caso Americanas. O banco afirmou que sofreu perdas bilionárias com o episódio e que já comprovou, por meio de documentos apresentados à Justiça, “a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários”. Disse ainda que recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização, que sempre alertou auditores e reguladores sobre a existência das operações de risco sacado e da exposição da varejista a fornecedores, e que chegou a interromper por mais de seis meses as operações de risco sacado com a companhia. O Itaú afirmou, por fim, que sempre atuou com “rigor ético e regulatório” e que confia no trabalho das autoridades.

