Áudios e mensagens de Whatsapp obtidos pelo Bastidor mostram que o prefeito interino de Macapá, Pedro DaLua, usou sua proximidade com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com o governador Clécio Luís para intimidar, constranger e tentar cooptar politicamente a vereadora Luana Serrão, do mesmo partido dos citados, o União Brasil.
O conteúdo integra uma representação criminal encaminhada pela vereadora ao Ministério Público do Amapá em 2025, que resultou na instauração de Notícia de Fato. O MP realizou perícia forense do áudio em setembro de 2025, com relatório técnico atestando autenticidade e integridade.
Na quinta-feira (21), o procurador-geral de Justiça do Estado, Alexandre Flávio Medeiros Monteiro, encaminhou ofício ao prefeito pedindo esclarecimentos sobre as acusações em dez dias.
Em uma das mensagens atribuídas a Pedro DaLua, ele afirma que “o Judeu e o Gov vão proteger a gente”, em referência a Alcolumbre e a Clécio Luís, após a repercussão de mensagens consideradas ofensivas contra a parlamentar.
Luana Serrão acusa Pedro DaLua de oferecer cargos públicos, vantagens políticas e espaços na estrutura municipal em troca de alinhamento político dentro do grupo comandado por Alcolumbre e Clécio Luís. Todos são do mesmo partido, o União Brasil.
O material entregue ao Ministério Público inclui capturas de tela de conversas de WhatsApp e um áudio atribuído a Pedro DaLua. Em uma das mensagens anexadas ao procedimento, um interlocutor alerta o prefeito sobre a repercussão negativa das declarações contra Luana Serrão.
“Fala presidente, o nego tá ficando feio!”, escreve o interlocutor. DaLua responde: “Hahaha tá nada, eu só oferecida (sic) pra essa vereadora sapatona o que ela gosta, uma rachadinha!” O interlocutor então afirma: “Meu Deus cara, o ministério público vai cair em cima da gente.” Na sequência, DaLua diz “Vai nada, o Judeu e o Gov vão proteger a gente, que se foda!”.

A pressão por apoio
A representação apresentada pela vereadora ao Ministério Público foi protocolada em 9 de setembro de 2025. No documento, ela afirma que passou a sofrer perseguição política na Câmara de Vereadores de Macapá após adotar posições independentes em relação ao grupo liderado por DaLua. À época, ele era presidente da Câmara. DaLua assumiu a prefeitura em 4 de março de 2026, após o Supremo Tribunal Federal determinar o afastamento do prefeito Dr. Furlan (PSD) e do vice Mário Neto (Podemos), adversários políticos de Alcolumbre e Clécio Luís no estado.
Segundo a vereadora, o episódio mais grave ocorreu durante uma reunião reservada na presidência da Câmara, da qual participaram apenas ela e DaLua. Temendo sofrer algum tipo de pressão ou constrangimento, Luana afirma que gravou a conversa. A gravação passou então a integrar a representação entregue ao Ministério Público.
No documento, a parlamentar sustenta que DaLua tentou usar o cargo de presidente da Câmara para pressioná-la a aderir ao grupo ligado a Alcolumbre e a Clécio Luís.
A denúncia reproduz trechos da conversa gravada. Em um deles, DaLua afirma: “O que pude fazer para alguém(…) não acelerar o meu processo de cassação de mandato, essas coisas. (…) Conhece como é judeu, né? Dizem que Davi é judeu de coração duro, e ele é. Eu posso fazer, mas também posso fazer por ti e pelo teu pai uma incursão. E eu te digo isso sem autorização do governador e do Davi”. (Escute a íntegra abaixo).
Na gravação anexada à Notícia de Fato criminal, DaLua afirma que chegou a discutir espaços políticos. O então presidente da Câmara relata que “a secretaria da mulher do governo do estado contempla não só a secretária mas também os espaços que tem lá dentro”, ao sugerir acomodações políticas e administrativas para o grupo da parlamentar.
DaLua propõe uma espécie de acordo político para garantir proteção ao mandato da vereadora, mencionando inclusive a possibilidade de reorganizar espaços administrativos e políticos para aliados dela. Diz que o União Brasil reagiria caso Luana Serrão mantivesse posições divergentes.
Seis dias depois da apresentação formal da denúncia, em 15 de setembro de 2025, o Ministério Público fez perícia técnica do material entregue pela vereadora. A conclusão do relatório foi que o material coletado manteve preservadas sua autenticidade e integridade digital durante todas as etapas de extração e armazenamento.
Proximidade com Alcolumbre
Davi Alcolumbre apareceu em diálogo vazado com DaLua logo após ele assumir a prefeitura de Macapá. O áudio foi divulgado pelo site Metrópoles, em março. Na conversa, o presidente do Senado orienta DaLua a procurar um desembargador que julgaria uma ação contra então prefeito, Dr. Furlan.
“Segunda, 10 horas, no gabinete dele, no tribunal, para você relatar as questões jurídicas e políticas, sem advogado”, disse Alcolumbre. DaLua respondeu que estava “todo arrepiado” com a conversa.

O Bastidor procurou nesta sexta-feira (22) o prefeito interino Pedro DaLua, o presidente do Senado Davi Alcolumbre e o governador Clécio Luís para que comentassem o conteúdo das mensagens, do áudio e das acusações apresentadas pela vereadora Luana Serrão ao Ministério Público do Amapá. A reportagem questionou especificamente as citações aos nomes de Alcolumbre e Clécio nas conversas atribuídas a DaLua, a oferta de cargos no governo do estado e as declarações reproduzidas na representação criminal. Até a publicação desta reportagem, nenhum dos citados havia encaminhado resposta.
Quando a gravação feita por Luana Serrão foi divulgada, ainda em 2025, DaLua soltou uma nota em que disse que a “gravação foi editada e utilizada de forma a tentar me constranger e me chantagear para atender a interesses pessoais, inclusive com a tentativa de convocação de terceiros para uso desta tribuna, algo que não se coaduna com a liturgia e a seriedade desta instituição. Não falei nada que desabone a minha conduta como presidente desta Câmara”. (Leia a íntegra no fim do texto).
O Bastidor também tentou contato com Luana Serrão, sem sucesso.

