A Polícia Federal encaminhou nesta quinta-feira (9) ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o termo de colaboração premiada do empresário Maurício Camisotti. Preso desde setembro na operação Sem Desconto, ele é o primeiro dos suspeitos de operar o esquema de descontos irregulares em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS a decidir contar o que sabe em troca de benefícios.
O acordo vinha sendo negociado desde o final do ano passado e passará também por avaliação da Procuradoria-Geral da República, antes de ser homologado pelo ministro André Mendonça. A expectativa da defesa é que, no final, Camisotti possa cumprir pena em prisão domiciliar.
Camisotti é apontado como sócio oculto da Ambec, a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos, que faturou 178 milhões de reais entre 2019 e 2023 com o roubo de dinheiro de aposentados e pensionistas. É suspeito de ter movimentado cerca 790 milhões de reais nos últimos anos como dono de companhias que diziam prestar serviços a entidades associativas de aposentados e pensionistas.
No caso de Camisotti, a investigação apontou indícios de que três entidades – Ambec, Unsbras e Cebap – eram usadas para realizar os descontos. Outro investigado, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, disse que nunca tratou de negócios diretamente com essas entidades e que o contato em nome delas era feito sempre por Camisotti.
A delação de Camisotti pode ir além das fraudes no INSS e voltar até a CPI da Covid, em 2020. Na ocasião, um relatório do Conselho de Administração Financeira, o Coaf, mostrou que ele fez uma transferência de 18 milhões de reais à Precisa Medicamentos, representante no Brasil do laboratório indiano Bharat Biotech, que produzia a vacina Covaxin.
A compra foi cancelada após indícios de irregularidades e suspeitas de cobrança de propina para fornecimento das vacinas. Foi aberto um inquérito pela Polícia Federal, que envolvia o presidente Jair Bolsonaro, suspeito de ter recebido informações a respeito do pedido da empresa. Em 2022, a investigação foi arquivada, a pedido do então procurador-geral da República Augusto Aras. Caso Camisotti apresente provas sobre possíveis irregularidades com a Precisa, o inquérito pode ser reaberto.

