Um empresário próximo ao senador Davi Alcolumbre recebeu, entre 2024 e 2025, mais de 72 milhões de reais em dinheiro público por meio de um contrato com indícios de superfaturamento. Luciano Goulart é dono de um jatinho que era usado com frequência por Alcolumbre.

A proximidade entre o senador e Luciano foi revelada pelo Bastidor em julho de 2024. A reportagem teve acesso agora a um relatório inédito da Controladoria-Geral da União, que trata de um contrato de 111 milhões de reais firmado entre o governo do Amapá e a organização religiosa Centro de Promoção Humana Frei Daniel de Samarate, conhecida como Capuchinhos, mas que acabou sendo executado pelo empresário que emprestava o jatinho a Alcolumbre.

Firmado em dezembro de 2024 com duração de um ano, o contrato previa a reorganização de serviços hospitalares no Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima, o principal do estado. O governador do Amapá é Clécio Luís, outro aliado de Alcolumbre. A auditoria foi aberta porque o hospital recebe recursos federais do Sistema Único de Saúde, o SUS.

De saída, o relatório de 75 páginas afirma que a Capuchinhos ganhou o contrato, mas transferiu 98% dos serviços para a Saúde Link, de Luciano Goulart, executar. Na prática, a empresa assumiu a contratação de profissionais de saúde, a organização de equipes médicas e a gestão de parte dos serviços hospitalares. Para os auditores, a Capuchinhos não poderia ter passado tudo para a Saúde Link. Segundo a CGU, o contrato firmado entre os Capuchinhos e a Saúde Link previa a transferência de 98% do valor total do termo de fomento.

A Capuchinhos não explica por que fez isso. Diz apenas ser uma “entidade sem fins lucrativos dedicada a oferecer serviços gratuitos de saúde e assistência social a famílias em situação de vulnerabilidade e risco social”. Em seu site, lista exames de imagem e ambulatoriais que são fornecidos gratuitamente. Não cita a parceria com a Saúde Link.

A auditoria da CGU identificou indícios de sobrepreço de 27,9% nos serviços analisados, algo em torno 18,2 milhões de reais em superfaturamento. Aponta ainda fragilidades na prestação de contas, como pagamentos de 55,5 milhões de reais sem a comprovação do cumprimento das metas previstas no contrato.

Os auditores afirmam ainda que o plano de trabalho previa metas incompatíveis com a capacidade do hospital. A proposta previa a realização de 7.800 cirurgias, 74% a mais que a capacidade anual do hospital, calculada em cerca de 4.000.

Além das falhas na execução do contrato, a CGU apontou problemas no processo de contratação. Não houve chamamento público para uma concorrência de preços e o parecer jurídico da Procuradoria do Estado foi emitido depois que o contrato da Capuchinhos com o governo já tinha sido assinado.

“A análise dos requisitos legais para a celebração do Termo de Fomento revelou quatro divergências significativas: falta de demonstração de efetividade das experiências anteriores da entidade, ausência de chamamento público, falta de parecer prévio da Procuradoria Geral do Estado e a falta de correspondência entre as atividades propostas e as metas a serem atingidas. Essas falhas comprometeram a legalidade da parceria”, diz o documento obtido pelo Bastidor.

Entre 30 de dezembro de 2024 e 23 de julho de 2025, o governo do Amapá pagou 74 milhões de reais à organização Capuchinhos. Com base no modelo de subcontratação identificado pela auditoria, 72 milhões de reais foram para a Saúde Link.

Relação antiga

A ligação entre Davi Alcolumbre, Saúde Link, a Capuchinhos e dinheiro público não é inédita. A empresa e a ONG são alvos do Ministério Público do Amapá por conta de um surto de infecções após mutirões de cirurgias oftalmológicas no programa Mais Visão, a cargo da Capuchinhos, que subcontratava a Saúde Link.

Como mostrou o Bastidor em 2024, a principal fonte de financiamento do programa foram emendas parlamentares destinadas por Alcolumbre.

Em 2023, ao menos 104 pacientes desenvolveram endoftalmite, infecção grave que pode levar à perda da visão. Dezessete deles ficaram cegos. O caso levou à abertura de investigações e à suspensão do programa.

O Ministério Público pede indenização mínima de 9 milhões de reais por danos morais e materiais coletivos e pensão vitalícia aos afetados. O MP entrou com uma ação contra o governo do Amapá, a Capuchinhos e a Saúde Link. No ano passado, a Justiça do Amapá condenou os três a indenizarem um paciente que ficou cego após cirurgia de catarata.

O jatinho

O empresário Luciano Goulart também aparece em investigações relacionadas ao uso do jatinho Hawker Beechcraft 400A, prefixo PR-MGD, por Alcolumbre durante anos. A aeronave foi citada em uma ação em tramitação no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá, que investigou suspeitas de abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral de 2022.

Luciano é próximo do senador ao menos desde 2019, quando foi escolhido para coordenar o Mais Visão. Desde que comprou a aeronave, ela foi alvo de ao menos duas investigações, uma delas por contrabando.

Luciano, Alcolumbre e o então governador Waldez Goes durante evento do governo do Amapá.

Goulart comprou o jatinho do senador Jayme Campos, do Mato Grosso, do mesmo partido de Alcolumbre, o União Brasil. De acordo com os registros na Agência Nacional de Aviação Civil, a transferência foi finalizada no dia 4 de maio de 2022 e Goulart pagou 7,2 milhões de reais.

O Bastidor procurou a Secretaria de Saúde do Amapá na noite de terça-feira (10). Perguntou sobre as irregularidades apontadas pela CGU, a respeito da ausência de chamamento público e o motivo do parecer da Procuradoria-Geral do Estado ter sido emitido apenas após a assinatura do contrato. Em nota, a Secretaria não respondeu as perguntas específicas enviadas pela reportagem. Afirmou que “a iniciativa foi adotada em um momento em que a rede estadual enfrentava forte demanda reprimida por cirurgias eletivas e especializadas”. Afirmou ainda que houve análise do plano de trabalho da parceria, “que passou por avaliações técnicas que resultaram em ajustes e revisões orçamentárias”. (Leia a íntegra abaixo).

A reportagem também buscou ouvir nesta quarta-feira (11) a organização religiosa Centro de Promoção Humana Frei Daniel de Samarate, conhecida como Capuchinhos, o empresário Luciano Goulart, o senador Davi Alcolumbre. A Capuchinhos preferiu não se manifestar.

A Saúde Link afirmou que atuou em parceria com a organização Capuchinhos na execução do programa Zera Fila HCAL 2025 e disse que sua participação foi fundamental para a realização de 8.836 cirurgias no Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima, no Amapá. A empresa contestou as conclusões da auditoria da CGU, afirmando que o relatório não teria considerado o instrumento de cooperação técnica firmado entre as duas instituições e que ambas tiveram papéis relevantes na execução do programa. A empresa também declarou que os valores recebidos estão vinculados às atividades desempenhadas no projeto e sustentou que os preços praticados estão de acordo com os valores de mercado. (Leia a íntegra abaixo).

Já o senador afirmou que “eventuais apontamentos feitos por órgãos de controle dizem respeito à relação institucional estabelecida entre o poder público estadual e a entidade executora do contrato, não havendo qualquer atribuição ou responsabilidade do presidente Davi Alcolumbre nesse processo”.

Leia a nota da Secretaria:

Leia as respostas da Saúde Link:

Leia a nota de Alcolumbre:

Atualização às 18h36 de 11 de março de 2026: Após a publicação da matéria, foram adicionadas as respostas da Saúde Link e a nota de Alcolumbre.

Atualização às 8h40 de 12 de março de 2026: Foi acrescentada a nota da Secretaria de Saúde.