Um empresário próximo do governo do Amapá e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil, voltou a fechar um negócio milionário com o estado mesmo após a Controladoria-Geral da União apontar sobrepreço em uma contratação anterior da mesma empresa. A Saúde Link, que pertence a Luciano Goulart, vai receber 127,9 milhões de reais para prestar serviços de saúde no Hospital de Clínicas Doutor Alberto Lima, o HCAL, o maior de Macapá.
Como revelou o Bastidor em março, entre 2024 e 2025 a Saúde Link recebeu mais de 72 milhões de reais de um contrato de 111 milhões de reais que a CGU apontou como superfaturado. O contrato foi assinado formalmente entre governo estadual e a organização religiosa Capuchinhos, mas 98% do valor foi repassado à Saúde Link, que assumiu à época a contratação de médicos e a gestão de leitos do hospital.
A CGU apontou sobrepreço de 27,9%, cerca de 18,2 milhões de reais, além de 55,5 milhões de reais pagos sem comprovação de que as metas foram cumpridas. Não houve chamamento público para concorrência de preços. Um parecer da Procuradoria-Geral do Estado do Amapá só saiu depois de o contrato já estar assinado.
O contrato do governo com a associação Capuchinhos terminou em dezembro de 2025. O Bastidor não encontrou nenhum contrato entre a Saúde Link e o governo do Amapá nos cinco meses seguintes. O primeiro que a reportagem localizou depois desse intervalo é de 6 de maio deste ano, no valor de 14,7 milhões de reais, por 48 dias. Foi assinado diretamente entre governo e Saúde Link, sem intermediários.
Em 10 de junho, a Secretaria de Estado da Saúde abriu uma disputa por dispensa de licitação para contratar, por até 317 dias, os mesmos serviços de saúde no mesmo hospital. Duas empresas participaram. A Saúde Link venceu com uma proposta de 147,3 milhões de reais. O valor da concorrente, a Pharma Distribuidora, foi de 148,8 milhões.
Documentos públicos mostram que a proposta vencedora da Saúde Link havia sido calculada para um prazo de execução maior do que o definido, de até 12 meses. Em 13 de agosto, a Secretaria retificou o valor da contratação para 127,9 milhões de reais, depois de pedir à empresa uma nova proposta compatível com o prazo de 317 dias efetivamente autorizado. Dois dias depois, em 15 de agosto, foi assinado o valor final. Diferentemente do episódio anterior, desta vez a Procuradoria-Geral do Estado emitiu parecer antes da assinatura.
A contratação é decidida pela Secretaria de Estado da Saúde do Amapá. Em março, quando foi procurado para falar sobre o contrato superfaturado da Saúde Link, Alcolumbre disse que eventuais apontamentos de órgãos de controle dizem respeito à relação institucional entre o poder público estadual e a entidade executora do contrato, e que não há atribuição ou responsabilidade sua.
O Fundo Estadual de Saúde do Amapá, de onde sairá o pagamento à Saúde Link, recebeu 185,9 milhões de reais em 2026 por uma linha específica de emenda parlamentar destinada ao custeio hospitalar, segundo levantamento do Bastidor no sistema de repasses do Ministério da Saúde. Desse total, 21,6 milhões de reais vieram de emendas de bancada, assinadas coletivamente pelos senadores e deputados federais do Amapá. A bancada foi coordenada por Alcolumbre até 2025, quando a coordenação passou ao deputado Dorinaldo Malafaia, do PDT.
Outros valores vindos da mesma linha de emendas parlamentares foram indicados indvidualmente pelo deputado federal Paulo Lemos e pelo senador Randolfe Rodrigues, ambos do PT. A maior parcela isolada, de 96 milhões de reais, indicada por Lemos, foi paga ao Fundo Estadual de Saúde em 3 de julho, 17 dias depois de a Saúde Link vencer a disputa que resultou no novo contrato. O fundo também recebeu, em 2026, 218,3 milhões de reais em repasses regulares do Sistema Único de Saúde, sem vínculo com emendas parlamentares.
Como revelou o Bastidor em 2024, Luciano Goulart, dono da Saúde Link, é próximo de Alcolumbre desde pelo menos 2019. É dono do jatinho que o senador usava com frequência, um Hawker Beechcraft 400. A aeronave aparece em duas investigações – uma de contrabando e outra no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá, por suspeita de abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral de 2022. Alcolumbre foi reeleito senador na ocasião com seu irmão na suplência. A aeronave foi vendida a Goulart em 2022 pelo senador Jayme Campos, do Mato Grosso, colega de partido de Alcolumbre.
A ligação entre Alcolumbre e Goulart apareceu em outro caso. Goulart foi escolhido para coordenar o Mais Visão, programa de mutirões de cirurgia de catarata, lançado em 2019 sob o governo de Waldez Góes, do PDT, também aliado de Alcolumbre. Em 2023, já sob o governo de Clécio Luís, do União Brasil, ao menos 104 pacientes desenvolveram endoftalmite após cirurgias do programa. Alguns ficaram cegos.
O Ministério Público do Amapá moveu ação contra o governo do Amapá, a Capuchinhos e a Saúde Link por danos morais e materiais coletivos, e pediu pensão vitalícia aos afetados. A Justiça do Amapá chegou a condenar o governo estadual, a Capuchinhos e a Saúde Link a indenizar um dos pacientes. A principal fonte de financiamento do Mais Visão foram emendas parlamentares destinadas por Alcolumbre.
Na segunda-feira (18), o Bastidor procurou a Secretaria de Estado da Saúde do Amapá e perguntou o que ocorreu com a prestação dos serviços da Saúde Link no HCAL entre o fim do contrato com a Capuchinhos e a nova dispensa, sobre a fonte orçamentária dos recursos e se há licitação regular em andamento para substituir o contrato emergencial. A reportagem também questionou a Saúde Link sobre a continuidade da prestação de serviços no mesmo período, o aumento do valor do contrato em relação ao anterior – este já apontado como superfaturado pela CGU. Não houve respostas até a publicação desta reportagem.

