Num gesto extraordinário de confronto com Donald Trump, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou neste domingo (11) que a ameaça de abertura de um processo criminal contra ele decorre das decisões de política monetária do órgão e não de irregularidades administrativas ou de informações prestadas ao Congresso.

A declaração foi dada em vídeo e em resposta à abertura de uma investigação criminal pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre a reforma da sede do Fed em Washington. Trata-se de um projeto de 2,5 bilhões de dólares que ultrapassou o orçamento inicial e passou a ser usado pelo governo Trump como argumento contra a atual direção do órgão.

Segundo Powell, o Fed recebeu na sexta-feira (9) intimações de um júri com a sinalização de que o Departamento de Justiça avaliava apresentar uma acusação criminal. Reportagem do New York Times afirma que procuradores abriram investigação sobre o caso.

“A ameaça de acusações criminais é consequência de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que servirá ao interesse público, em vez de seguir as preferências do presidente”, disse Powell em comunicado divulgado em vídeo hoje à noite.

O presidente do Fed afirmou ainda que a instituição manteve o Congresso informado sobre o andamento da obra a partir de depoimentos e divulgações públicas. Acrescentou que o órgão cumpriu seu dever de prestar contas e não houve omissão de informações relevantes aos parlamentares.

A investigação ocorre em meio ao aumento das tensões entre o Fed e a Casa Branca. O presidente Donald Trump tem pressionado publicamente por cortes na taxa de juros e criticado Powell pela recusa.

Trump já afirmou, por exemplo, que o Fed prejudica o crescimento econômico ao manter a política monetária restritiva. Foi mais longe: deu ordem para demitir a governadora do Fed Lisa Cook, num caso que foi parar na Justiça.

Leia a íntegra do comunicado de Powell:

Na sexta-feira, o Departamento de Justiça notificou o Federal Reserve com intimações de um grande júri, ameaçando uma acusação criminal relacionada ao meu depoimento perante o Comitê Bancário do Senado em junho passado. Esse depoimento tratou, em parte, de um projeto plurianual de reforma de prédios históricos de escritórios do Federal Reserve.

Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilidade em nossa democracia. Ninguém — certamente nem o presidente do Federal Reserve — está acima da lei. Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças do governo e da pressão contínua que vem sendo exercida.

Essa nova ameaça não diz respeito ao meu depoimento em junho passado nem à reforma dos prédios do Federal Reserve. Tampouco se trata do papel de supervisão do Congresso; o Fed, por meio de depoimentos e outras divulgações públicas, fez todo o esforço para manter o Congresso informado sobre o projeto de reforma. Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é consequência de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que servirá ao interesse público, em vez de seguir as preferências do presidente.

Trata-se de saber se o Fed poderá continuar a definir as taxas de juros com base em evidências e nas condições econômicas — ou se, em vez disso, a política monetária passará a ser orientada por pressão política ou intimidação.

Servi no Federal Reserve sob quatro administrações, tanto republicanas quanto democratas. Em todos os casos, desempenhei minhas funções sem medo ou favorecimento político, focado exclusivamente em nosso mandato de estabilidade de preços e máximo emprego. O serviço público às vezes exige manter-se firme diante de ameaças. Continuarei a fazer o trabalho para o qual o Senado me confirmou, com integridade e compromisso com o povo americano.

Obrigado.