O colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) rejeitou por unanimidade o pedido da área técnica para reconsiderar a decisão que dispensou a Ambipar de realizar uma oferta pública de aquisição (OPA) de ações.
A decisão, revelada por O Globo, foi tomada na última reunião do colegiado, na terça-feira (23). Os técnicos pediram a reanálise porque a dispensa da oferta havia sido definida após voto de qualidade do presidente interino, Otto Lobo.
A OPA passou a ser discutida na autarquia depois de a área técnica avaliar compras relevantes de ações da Ambipar pelo controlador, Tércio Borlenghi Júnior, e por fundos da Trustee DTYM, ligada ao empresário Nelson Tanure.
Para a Superintendência de Registro de Valores Mobiliários, as operações superaram o gatilho regulatório de um terço do capital social, o que teria reduzido o free float e acionado a obrigação de oferta para proteção de minoritários.
Caso a OPA fosse determinada, Borlenghi Júnior teria de desembolsar milhões para comprar ações dos minoritários nas mesmas condições em que ampliou sua participação na companhia.
Em julho de 2025, no entanto, o colegiado reverteu o entendimento da área técnica e dispensou a oferta. A CVM concluiu que, no caso concreto, não se configurou a hipótese regulatória. A decisão gerou controvérsia. No mês anterior, o então presidente da autarquia, João Pedro Nascimento, havia votado a favor da OPA.
Após a renúncia de Nascimento, Otto Lobo assumiu interinamente a presidência e desconsiderou o voto do antecessor e votou duas vezes: uma como diretor e outra como presidente. O placar ficou em 3 a 1, com dois votos de Lobo e um do diretor João Accioly contra a OPA, e o voto da diretora Marina Copola a favor.
A atuação de Lobo gerou incômodo entre técnicos da CVM, que pediram a reconsideração do voto dado por ele como presidente. O objetivo era levar novamente ao colegiado o mérito da discussão – isto é, se a Ambipar deve ou não realizar a OPA.
Oito dias antes de deixar o cargo, no entanto, Lobo pautou o recurso. O colegiado rejeitou o pedido. Com sua saída em 31 de dezembro, a CVM ficará sem quórum mínimo regimental e as deliberações tendem a ser travadas.
Como mostrou o Bastidor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de indicar o próximo presidente da autarquia e mais dois diretores. As indicações precisam ser aprovadas pelo Senado, em um clima pouco favorável ao governo após a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal.

