Pouca gente, mesmo em Brasília, já entendeu o potencial de destruição da CPMI do INSS. Por enquanto, a comissão causou mais barulho do que estragos. Mas se trata de um teatro de batalha fundamental para o futuro político próximo do país, incluindo as eleições presidenciais.

Relatos sob reserva ao Bastidor de investigadores da Polícia Federal que atuam no caso e de dois dos envolvidos no esquema apontam que os desvios no INSS abasteciam mais intermediários de políticos do que se sabe em público até agora. O que inclui familiares, assessores e advogados de gente grande em Brasília.

Não interessa ao governo e ao centrão que as investigações avancem. A destruição mútua é assegurada. Esse equilíbrio de forças, porém, é instável. Periga ser rompido caso o movimento de Davi Alcolumbre contra a nomeação de Jorge Messias ao Supremo dê certo.

Conforme aumentam as tensões entre os chefes do centrão e a cúpula do governo Lula, aumenta o valor estratégico das investigações da CPMI do INSS. É de lá que pode sair a primeira ogiva – contra um lado ou contra outro. Uma vez detonada, a guerra aberta é inevitável e, sob a luz de uma CPMI, incontrolável.

Além de quebras de contas bancárias centrais ao esquema, há dois temas já conhecidos com risco de deflagar a guerra. Um são as visitas do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes — conhecido como “Careca do INSS” — a gabinetes do Senado. O outro, a quebra de sigilo bancário e a possível convocação de Paulo Boudens, ex-assessor de Alcolumbre.

Boudens recebeu 3 milhões de reais da Arpar Participações e Empreendimentos. É uma das empresas que, segundo a PF, foi usada no esquema de fraude que roubou aposentados e pensionistas.

Integrantes da CPI, inclusive o relator, deputado Alfredo Gaspar, do União de Alagoas, ingressaram com uma ação no Supremo para tentar derrubar o sigilo imposto pelo Senado aos registros de entrada e saída do “Careca” no Congresso. Até agora, não houve decisão favorável. Até agora, frise-se.

Em setembro, Alcolumbre justificou a manutenção do sigilo. Disse que se trata de uma norma da Advocacia do Senado e que todo parlamentar tem o direito de receber quem quiser em seu gabinete.

A oposição já apresentou requerimentos para a quebra do sigilo bancário de Boudens, mas a base do governo — maioria no colegiado — conseguiu barrar a proposta. Por ora, parlamentares governistas não querem confusão com ele, apesar do valor elevado recebido de uma empresa investigada. Um integrante da base chegou a afirmar ao Bastidor que desconhecia o envolvimento da Arpar no esquema.

A oposição também pretende apresentar um requerimento de convocação de Boudens, mas ainda não há um autor definido. Um parlamentar relatou ao Bastidor que haveria interferência de Alcolumbre no tema e que ele teria ameaçado encerrar a CPI caso o assunto voltasse à pauta. Pelo regimento interno do Senado, um nome rejeitado em requerimento não pode ser reapresentado, salvo se surgirem fatos novos.

Atualmente, Boudens está lotado no Senado como assessor parlamentar do Conselho de Estudos Políticos do Senado Federal.

Um outro personagem que preocupa o centrão é Danilo Trento. Ele se apresenta como empresário, mas, segundo investigações da Polícia Federal e lobistas da capital, atua como operador. É próximo de senadores, advogados influentes e da cúpula de partidos do centro, como União Brasil e PP.

Como mostrou o Bastidor, documentos da Receita Federal em posse da CPMI mostram que Trento tem relação próxima com Maurício Camisotti, outro investigado que está preso por participação nos desvios de recursos de aposentadorias de beneficiários do INSS.

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