As quatro investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de São Paulo que apuram a ligação do PCC (Primeiro Comando da Capital) com um esquema nacional de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis têm um ponto de convergência na fintech BK Bank. Segundo relatório da Receita Federal obtido pelo Bastidor, a fintech teve uma participação ativa na engrenagem criminosa, com a anuência de seus donos.
De acordo com as investigações, os líderes foragidos Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme Sila, o Beto Louco, coordenavam o esquema por meio também de subgrupos que atuavam em diversas cidades do interior paulista e do Paraná. Todos tinham em comum o uso sistemático da BK Bank para movimentar e lavar dinheiro.
A Receita Federal classificou esses subgrupos clientes da BK em núcleos que deram origem às principais operações em andamento: o núcleo Aster/Copape, ligado a Mohamad, base da operação Carbono Oculto; o núcleo Paraná, comandado por Ítalo Belon Neto, que originou a operação Tank; o núcleo Alan de Souza Yang e José Carlos Gonçalves (Alemão), também investigado na Carbono Oculto; o núcleo Zaraboxter, da família Cepeda, igualmente atingido pela Carbono Oculto; e o núcleo São Paulo, liderado por Flávio Silvério Siqueira, empresário do ramo de combustíveis e alvo da operação Spare do Ministério Público de São Paulo.
Para a PF e o MP, a participação da BK Bank foi estrutural. Além de disponibilizar contas-bolsão, que ocultam os verdadeiros titulares das transações, a fintech manipulou sua contabilidade interna para impedir a identificação de fluxos financeiros, inclusive de criptmoedas. Entre 2020 e 2024, a empresa comprou o equivalente a 74 milhões de reais em criptomoedas, mas vendeu apenas 3,9 milhões de reais — e nada disso foi registrado na contabilidade formal, conforme constatou a Receita.
A Receita Federal afirma que a BK Bank atuava como “quebra de elo” entre origem e destino dos valores, impedindo o rastreamento pelas autoridades. Desde 2019, suas principais clientes passaram a ser empresas do setor de combustíveis — exatamente quando começaram a ser abertas, na fintech, contas vinculadas a empresas controladas pelos grupos de Mohamad e de Beto Louco.
A movimentação financeira da BK Bank saltou de 183 milhões em 2019 para 1,13 bilhão em 2020, atingiu 5,26 bilhões em 2021 e ultrapassou 13,4 bilhões em 2022 e 13,9 bilhões em 2023. O crescimento superior a 7.500% em quatro anos é considerado totalmente incompatível com o porte declarado e a capacidade operacional real da fintech.
Ao todo, a BK movimentou 34 bilhões de reais de 2019 a 2023. Uma parte relevante -ainda não especificada- desse montante passou por empresas hoje investigadas em esquemas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Entre elas, a Aster Petróleo, de propriedade de Mohamad e apontada como maior cliente da BK, que movimentou 2,86 bilhões de reais em 2022.
O documento fiscal também identifica personagens essenciais para o funcionamento da estrutura criminosa. Entre eles está Marcelo Dias de Moraes, apontado como operador financeiro dentro da BK Bank, que recebeu procurações para movimentar contas-bolsão no Bradesco e no Banco do Brasil. Marcelo fez uma transferência de 10 milhões de reais, em 2020, que saiu da BK Bank, passou pela Parmo Holding e foi enviada à offshore MDM Property LLC, nos Estados Unidos — ambas controladas por ele mesmo. Parte dos valores retornou a contas pessoais de Marcelo, o que reforça sua posição de operador financeiro.
Outro nome citado é o do contador João Batista Moretti, ligado a cerca de 40 empresas que movimentaram recursos dentro da estrutura da BK Bank — muitas delas sem atividade econômica compatível com os valores transacionados. Moretti também aparece vinculado a empresas associadas a Mohamad, da Copape, e é investigado por fornecer a base contábil necessária para que empresas de fachada recebessem e redistribuíssem valores oriundos da lavagem.
O Bastidor tenta contato com as defesas dos envolvidos.
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