Documentos obtidos pelo Bastidor revelam que decisões administrativas recentes do Banco Central geraram, ao menos, 11 bilhões de reais ao BTG em créditos contra a própria União. Trata-se de uma soma conservadora de créditos e prejuízos fiscais obtida pelo grupo de André Esteves por meio de aval do BC. Os movimentos que privilegiaram o BTG partiram da Área de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, chamada de Diorf, um dos setores mais estratégicos do Banco Central. As decisões ocorreram após a nomeação de Renato Gomes à Diretoria do BC. Ele foi indicado por Jair Bolsonaro à chefia da Diorf em abril de 2022. 

Foi sob o comando de Renato Gomes que a área técnica do Banco Central instruiu o encerramento, entre 2022 e 2024, das liquidações extrajudiciais dos bancos Econômico e Nacional. Nos dois casos, a área de Renato Gomes deu parecer favorável para que o BTG assumisse o controle dos bancos. As decisões foram rápidas. No caso do Econômico, três meses. No caso do Nacional, menos de um mês. As liquidações transcorriam desde a década de 1990. Decorriam das quebras dos bancos naquele período e do Proer, programa de socorro a eles criado no governo de Fernando Henrique Cardoso. 

De acordo com documentos das liquidações extrajudiciais, balanços dos bancos e relatórios do BC e da CVM, entre outros papeis, as canetadas de Renato Gomes, de seus subordinados e de alguns de seus colegas ajudaram a transformar zumbis bancários, repletos de passivos, em corpos financeiros vivos – em CNPJs limpos, dos quais o BTG passaria a extrair bilhões em créditos fiscais, títulos federais com pagamento certo e outros ativos valiosos mediante decisões favoráveis em Brasília.

Renato Gomes, o artífice discreto do encerramento político do Proer no Banco Central, apresenta-se como professor universitário e um profissional técnico. Chegou ao cargo, em parte, graças à influência de Roberto Campos Neto, presidente do BC também nomeado por Bolsonaro. A chegada de Campos Neto ao BC, em 2019, fortaleceu em Brasília o grupo do mercado financeiro carioca. Campos Neto é de lá, assim como André Esteves – e, não menos importante, assim como Renato Gomes, apesar da trajetória eminentemente acadêmica deste, na PUC do Rio e na Universidade de Toulouse, na França.

De acordo com integrantes do BC e interlocutores de Esteves, Renato Gomes e o chairman do BTG conversam com frequência e têm relação próxima – algo que pode ser, em parte, atribuído à natureza do cargo de direção no BC; ainda assim, chama a atenção de colegas de ambos. O mandato de Renato Gomes terminal no final deste ano. Executivos do grupo de Esteves dizem que, após quarentena, gostariam de contar com os serviços dele. Procurado pelo Bastidor, o diretor não respondeu se recebeu convites nem se os aceitou – ou se os aceitaria.

Na superfície, as decisões concomitantes de encerrar as liquidações do Econômico e do Nacional e ressuscitar os dois bancos sob o comando do BTG podem ser descritas como técnicas. O banco de André Esteves se comprometeu com o essencial: pagar credores antigos, diante das excelentes condições de mercado para isso após tantas décadas, e seguir regras simples para reativar as licenças dos bancos. 

Descritas desse modo simplório, as operações seriam, como se diz no mercado, um no brainer: decisões regulatórias benéficas ao interesse público e ao próprio sistema financeiro nacional. O fato de que o BTG seria o único ente privado, o único player, a ganhar dinheiro – muito dinheiro – com essas operações parecia, também, ser um detalhe.

Nas descrições de mercado e no BC sobre essas operações, há sempre um ar de fatalidade na opção pelo BTG. É como se o grupo de André Esteves fosse o único apto ou capaz, no sistema bancário brasileiro, para assumir essa posição – ou, sendo preciso, para ganhar essa posição. Desconsideram-se, para todos os efeitos, a trajetória controversa do banco e de seu chefe, as estratégias altamente agressivas deles para obter resultados e o alto risco da ampliação da concentração bancária nos negócios bilionários do setor. Sobretudo dos negócios que dependem de canetas amigas em Brasília.

É aí que o aspecto que deveria ser técnico adquire contornos políticos. Surgem, fatalmente, suspeitas de benefícios indevidos ao BTG e a outros bancos grandes. Assim como a quebradeira na década de 1990 ajudou na concentração bancária, por meio da ideia de que a estabilidade do sistema passa pelo socorro dos bancões aos menores, consolidando ainda mais espaço e lucro em operações duvidosas de resgate, o capítulo final do Proer, décadas depois, parece obedecer ao mesmo princípio. Agora, em vez de Unibanco, é o momento do BTG – e dos parceiros de banqueiros como André Esteves.

A natureza política das decisões de Renato Gomes e de seus colegas revela-se pela própria decisão de decidir – de optar pelo BTG em todos os casos disponíveis, em vez de optar por outro tipo de “organização” e “resolução”, como indica o próprio nome da área do diretor. É como se Gomes e o BC estipulassem, de antemão, que o BTG é o liquidante natural dos bancos brasileiros. Que o grupo de André Esteves detém o monopólio da conquista de CNPJs bancários os quais, após decisão da autoridade monetária, viram máquinas de gerar bilhões em créditos, a maioria deles contra o próprio Estado. É uma “organização do sistema financeiro” ao sabor do grandes bancos; a “resolução”, por sua vez, parece competir privativamente ao BTG.

Os zumbis financeiros

As decisões do diretor Renato Gomes, com aval de colegas, têm peso histórico. Graças a eles, o BTG operou uma façanha inédita no capitalismo brasileiro: a ressurreição de dois cadáveres bancários. Na verdade, três, a se considerar uma operação anterior com o Bamerindus.

Quando o BTG iniciou as operações para adquirir o controle do Banco Econômico em 2021, o cenário era de pasmaceira institucional. Tanto o Econômico quanto o Nacional estavam em liquidação extrajudicial desde 1996. Eram zumbis financeiros, com patrimônios líquidos profundamente negativos, presos em um emaranhado de passivos bilionários e ativos ilíquidos administrados lentamente por liquidantes nomeados pelo BC.

A estratégia do BTG, executada pela sua divisão de “Special Situations”, foi aprimorada após o sucesso na aquisição do Bamerindus em 2014. O objetivo não era reativar as operações bancárias tradicionais, mas realizar uma alquimia contábil: adquirir o CNPJ para explorar os dois ativos mais valiosos escondidos nos escombros. O primeiro são os créditos contra a União, especialmente aqueles ligados ao Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS), que possuem risco soberano. O segundo, e talvez o mais cobiçado, são os prejuízos fiscais acumulados. Para um banco altamente lucrativo como o BTG, essas décadas de perdas representam anos de redução na carga tributária futura, já que a legislação permite abater lucros tributáveis com prejuízos passados.

A engenharia para acessar esse tesouro exigiu uma complexa coreografia financeira, legal e regulatória, com padrões idênticos nos dois casos. O Banco Central impôs uma condição: as liquidações só seriam levantadas se os bancos atingissem patrimônio líquido positivo e todos os credores fossem equacionados. Ao longo dos anos, o BTG se posicionou, especialmente em Brasília, para fechar o buraco que impedia o fim da liquidação, transformando a exigência regulatória em vantagem estratégica.

A tática operacional variou, mas o objetivo era o saneamento de passivos. No Econômico, o BTG comprou os créditos dos maiores credores com desconto e os converteu em capital; no Nacional, financiou um aumento de capital maciço para quitar os passivos restantes. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: o BTG assume o controle de um banco limpo, livre das dívidas antigas, mas carregado de créditos valiosos a receber e quase 2 bilhões de reais em escudos fiscais.

Caso Econômico: 1 bilhão por 10

A operação no Banco Econômico (posteriormente rebatizado de Banco BESA) iniciou-se em setembro de 2021. A massa falida apresentava um patrimônio líquido negativo de cerca de 1,3 bilhão de reais, mas escondia 3,15 bilhões de reais em prejuízos fiscais acumulados e uma carteira maciça de créditos FCVS com valor de face de 6,9 bilhões de reais.

O BTG, como sempre faz, foi ao governo para manobrar. Em vez de negociar primeiro com os acionistas, o banco participou de um leilão organizado pelo BNDES e pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os maiores credores do Econômico, detendo créditos relacionados ao Proer. O BTG foi o único a oferecer um lance. Arrematou esses créditos por 937 milhões de reais.

Ao se tornar o principal credor, o BTG executou a etapa crucial da engenharia: um “debt-to-equity swap” (troca de dívida por ações). Em 2022, enquanto Campos Neto emplacava Renato Gomes no BC, o BTG convertia os créditos que havia comprado em novas ações do Econômico. Ao fazer isso, o BTG simultaneamente extinguiu um grande passivo do banco e o capitalizou, tornando-se seu controlador. Paralelamente, cerca de 30 milhões de reais foram usados para comprar a participação de minoritários relevantes, como a Companhia de Participações Aliança da Bahia.

Com os passivos equacionados — incluindo a quitação da dívida remanescente do Proer com o Banco Central —, o caminho regulatório estava livre. Numa operação política empurrada com o aval de Paulo Guedes e Campos Neto, a área de Renato Gomes, recém-chegado ao BC, levou a autoridade monetária a decretar formalmente o fim da liquidação extrajudicial em 5 de outubro de 2022, após 26 anos. 

Em resumo, o BTG gastou pouco menos de 1 bilhão de reais para assumir uma entidade com mais de 10 bilhões de reais em ativos futuros. Sem o parecer de Renato Gomes e de seus colegas, essa mágica seria impossível.

Caso Nacional: parecer em um mês

O sucesso no Econômico pavimentou o caminho para o Banco Nacional. A abordagem tática foi diferente. Exigiu um desembolso maior. Em novembro de 2023, o BTG firmou um acordo de opção de compra (call e put) com os controladores do Nacional (holdings associadas à família Magalhães Pinto).

O plano estruturado envolvia um substancial aumento de capital privado de 1,5 bilhão de reais, necessário para cobrir o déficit patrimonial e quitar os passivos restantes. Embora formalmente subscrito pelos controladores, o aumento de capital foi financiado pelo compromisso do BTG.

Para viabilizar a operação, era necessária novamente a caneta amiga da área de Renato Gomes no BC. Tratava-se da precificação das ações. A aprovação do Banco Central veio, por óbvio. Seguindo o precedente do Econômico e do Bamerindus, um laudo de avaliação (preparado pela Ernst & Young) aplicou um desconto de 60% sobre o valor patrimonial ajustado, refletindo a longa inatividade do banco. Esse desconto profundo permitiu que o 1,5 bilhão injetado comprasse uma quantidade colossal de novas ações a um preço irrisório (cerca de R$ 15,82 por lote de mil ações), efetivamente posicionando o BTG para assumir quase toda a equity.

Em meados de 2024, o capital foi integralizado e usado para quitar todos os credores restantes, limpando cerca de 24 bilhões de reais em passivos. A aprovação foi veloz. Em 31 de maio de 2024, o BTG anunciou o pedido da compra do Nacional no Banco Central. Menos de um mês depois, em 27 de junho, a área de Renato Gomes aprovou a transferência do Nacional ao BTG. Em 14 de agosto, o BC, por meio de Campos Neto, encerrou o processo de liquidação extrajudicial. No dia seguinte, o BTG consumou a aquisição do controle. Em março de 2025, o BTG concluiu a OPA para os minoritários restantes e fechou o capital do Nacional. Seja no Banco Central, seja na CVM, onde também não faltavam diretores técnicos, como João Pedro Nascimento, irmão de um executivo do BTG, não houve qualquer obstáculo.

O custo total da transação do Nacional foi estimado em 2,7 bilhões de reais. Em troca, o BTG levou outro pacote robusto de ativos: cerca de 4,4 bilhões em créditos contra o governo (3,12 bilhões em FCVS e 1,3 bilhões em outros recebíveis do Tesouro Nacional) e 1,74 bilhão de reais em prejuízos fiscais. 

Desde então, para surpresa de ninguém, o BTG encontra um ambiente favorável para receber antecipadamente os créditos bilionários de FCVS, em pagamentos organizados pelo Tesouro e pela Caixa, com apoio político do ministro Jorge Messias, da AGU. Técnicos do Tribunal de Contas da União chegaram a apontar vícios nas tentativas recentes da AGU de acelerar os pagamentos para o BTG. Foram ignorados. Os números de 2025 dos pagamentos de FCVS, assim como as demonstrações do novo Nacional, mostram que os créditos entraram no balanço do banco.

Em 7 de agosto, o Bastidor mandou perguntas detalhadas ao diretor Renato Gomes acerca das autorizações da área dele para as operações do Econômico e do Nacional. Também o questionou sobre a relação com o BTG e André Esteves. Ele não respondeu.

Em nota, a Assessoria Especial de Comunicação Social da AGU afirma que “nunca houve qualquer “apoio político” ou qualquer interferência do advogado-geral da União para favorecer o banco BTG no recebimento antecipado de créditos do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS). A propósito, a Advocacia-Geral da União (AGU) jamais recebeu qualquer pedido do banco com essa finalidade”. Leia aqui a nota na íntegra.

Leia abaixo o termo de conciliação assinado, entre outros, pelo ministro Jorge Messias.

Reportagem atualizada às 19h20 de 02 de setembro para incluir nota da AGU e cópia do termo de conciliação assinado, entre outros, pelo ministro Jorge Messias.

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