Por definição, entrevistas coletivas após operações policiais relevantes servem para esclarecer dúvidas para que jornalistas possam informar o público. Mas, nesta quinta-feira (28), o Ministério da Justiça usou a coletiva sobre as operações Quasar e Tank, deflagradas pela Polícia Federal e pela Receita Federal contra fraudes no setor de combustíveis, como um evento de marketing para defender a aprovação da PEC da Segurança Pública.

O governo enfrenta dificuldades no Congresso para aprovar a PEC, devido à resistência de governadores de oposição que não querem entregar a bandeira da segurança nas mãos do presidente Lula na campanha à reeleição em 2026. Afinal, a segurança pública aparece em pesquisas de opinião como a principal preocupação dos brasileiros. É um ativo eleitoral valioso.

Portanto, do ponto de vista da estratégia de comunicação do Palácio do Planalto, colocar ministros para falar nessa situação passa o recado de que o governo está empenhado no combate às facções criminosas. A coletiva, então, foi convertida numa solenidade. Os ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da Fazenda, Fernando Haddad, fizeram pronunciamentos.

 “Temos verificado que, para combater esse fenômeno, não basta mais apenas uma operação, ou várias operações de natureza policial. É preciso uma atividade integrada de todos os órgãos governamentais, e nesse caso os órgãos fazendários, da Receita Federal, são imprescindíveis nessa tarefa”, disse Lewandowski.

“Essa operação é exemplar, porque ela conseguiu chegar na cobertura do sistema, no andar de cima do sistema”, disse Haddad. Há meses, Haddad refere-se ao “andar de cima” quando defende o projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais mensais, com o aumento na taxação de quem recebe mais de 50 mil reais mensais. Na coletiva-solenidade, a frase soou dúbia: o “andar de cima” pode ser tanto os cabeças do esquema criminoso, quanto os gestores da Faria Lima, dado que fundos de investimento foram alvos da operação.

Mas, para além do marketing político, havia uma vasta investigação a ser explicada – e isso não aconteceu. As duas operações federais – e a operação do Ministério Público de São Paulo – afetaram um setor onde a dominação do crime organizado é gritante. Os mecanismos investigados são complexos: importação e adulteração de combustíveis, sonegação de impostos e um sistema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio que usa fintechs e a nata do mercado financeiro.

Em condições normais, uma entrevista coletiva seria essencial para esclarecer detalhes da trama. Dado que parte da operação ainda é sigilosa para não prejudicar as investigações, agentes envolvidos e autorizados, como integrantes do Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal, são essenciais para a tarefa. Ministros, por óbvio, não acompanham minúcias de trabalhos assim e não devem cumprir esse papel.

Lewandowski e Haddad não responderam perguntas. Saíram e deixaram na mesa o delegado-geral da PF, Andrei Rodrigues, com integrantes da Receita Federal. Mesmo assim, foram poucas explicações sobre o esquema criminoso e evidências de envolvimento dos alvos com o crime organizado. No passado, operações assim não contavam com entrevistas coletivas, pois as informações eram sigilosas; as autoridades divulgavam apenas o mínimo. Era uma opção neste caso. Mas, nesta quinta, o governo fez um evento máximo para explicar o mínimo.

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