A descoberta de um plano do PCC para matar o senador Sérgio Moro e o promotor Lincoln Gakya, entre outros agentes públicos, fará barulho nesta quarta-feira, com pronunciamentos duros, debates e ideias de projetos para endurecer o combate ao crime. Tudo se justifica pela gravidade do crime frustrado pela Polícia Federal com prisões e apreensão ainda em curso. Mas é pouco.

Deixando de lado o calor e indo à luz: há anos o Brasil assiste quase passivamente ao crescimento do crime organizado, sua expansão para diversas atividades e sua penetração no Estado e na política. É o caminho que foi feito pela Máfia na Itália, por exemplo.

Faça um esforço de memória: você ouviu falar em “combate ao crime organizado” na campanha do ano passado? Já ouviu um candidato ou autoridade tocar no assunto? Provavelmente a resposta será negativa. Há tempos o crime organizado deixou de ser apenas um problema de segurança pública. Deveria ser tratado como um tema institucional, uma ameaça à democracia.

A Polícia Federal descobriu que a maior facção criminosa do país pretendia matar as autoridades por terem transferido seus maiores líderes de presídio – ato de Moro que dificulta comunicação e, portanto, a gestão – e por seu trabalho de investigação – que causa prejuízos, e é o caso do promotor Gakya, maior autoridade em PCC no país.

Mas a questão é maior e mais incômoda: facções criminosas, em especial a maior delas, o PCC, cresceram nos últimos anos graças ao desinteresse do governo federal e dos estaduais em combatê-las. Combater o crime é frustrante, desagradável, exige lidar com sujeira, produz resultados invisíveis e não dá votos, por isso políticos não se interessam.

A polícia combate o PCC, Comando Vermelho e outros grupos com sua expertise. Mas grupos assim se tornaram grandes demais para ficar apenas nisso. O trabalho exige ações federais e estaduais coordenadas – em questões financeiras, por exemplo.

É preciso que o governo federal e os estaduais se conscientizem que o crime organizado, em especial o PCC, não apenas trafica drogas, rouba e mata pessoas. Também participa de crimes ambientais na Amazônia, tem representantes democraticamente eleitos na política, tem hordas de advogados (a “Sintonia dos Gravatas”), já participa de desvios de recursos públicos e possui redes de comércio para lavar dinheiro.

Sem combate institucional mais amplo e prioritário, organizações criminosas como o PCC e outras podem chegar ao estágio da Máfia, que fez deputados, senadores e teve até primeiro-ministro na Itália.