Na miúda, a Câmara aprovou ontem (segunda) no final da noite um projeto que atende aos interesses dos empresários do setor de carvão – e, não por acaso, de Victor Bicca, diretor-presidente da ANM que trabalha forte por eles. 

Foi um clássico jabuti. Na Câmara, Bicca e seus aliados no empresariado conseguiram transformar um projeto do Senado que subsidiava pequenas distribuidoras de energia numa proposta que confere 15 anos de sobrevida legal e financeira ao poluentes carboníferos de Santa Catarina. 

Como atestam lobistas envolvidos na empreitada e funcionários da ANM, o projeto aprovado à sorrelfa, sem discussão, consiste numa linha obrigatória de financiamento público à energia suja gerada numa das principais carboníferas de Santa Catarina. 

O novo texto era imprescindível para o futuro do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, o maior grupo de usinas a carvão da América Latina. Ele foi vendido recentemente por 325 milhões de reais pela Engie Brasil à Diamante Geração de Energia. Espera-se que gere bilhões de reais em receitas nos próximos anos. Caso aprovado no Senado, o jabuti assegura que o negócio siga prosperando nas próximas décadas, apesar do imenso impacto ambiental.

Era a terceira vez que os entusiastas do projeto tentavam meter esse jabuti numa proposta remotamente adjacente ao setor de energia. Embora Bicca e a ANM devam fiscalizar a área, funcionários graduados da agência afirmam que ele não esconde sua afinidade com grandes empresários do setor. 

O projeto veio do Senado. Como virou outra coisa na Câmara, será devolvido para lá. Há intensa articulação para aprová-lo rápida e discretamente.