Repercutiu mal no próprio Supremo o voto de Kassio para rejeitar denúncia contra Ciro Nogueira. O senador foi o principal artífice, no Congresso, da candidatura do desembargador ao Supremo. Mantiveram-se próximos. Ciro chegou a chamar o conterrâneo de “nosso Kassio”durante evento em homenagem ao desembargador.
Na sexta, por três votos a dois, a Segunda Turma do Supremo rejeitou denúncia em que Ciro e outros próceres do PP eram acusados de tentar embaraçar investigações sobre uma organização criminosa – um crime conhecimento popularmente como obstrução de Justiça.
Edson Fachin votou por receber a denúncia ainda em 2018. Cármen Lúcia acompanhou o relator. Agora, após pedido de vista, Gilmar Mendes abriu dissidência, à qual se filiou Ricardo Lewandowski. Kassio não se declarou suspeito e votou com Gilmar.
Mesmo ministros mais pragmáticos acreditam que faltou habilidade política a Kassio. Como o julgamento transcorreu no plenário virtual, seria, em tese, ainda mais simples aguardar os votos dos colegas, confirmar que o placa estava empatado – e, declarando-se suspeito, deixar de votar. (O empate favorece o acusado; Ciro e os demais não virariam réus.)
O problema passaria a ser, contudo, o precedente de coerência: Kassio precisaria declarar-se suspeito nos demais casos que envolvem o padrinho Ciro Nogueira. Na sexta, o ministro aguardou as manifestações de Gilmar e Lewandowski. Votou em seguida.
Ao menos três ministros – e um deles não tem qualquer simpatia pela Lava Jato, por exemplo – avaliam que Kassio errou ao não se declarar suspeito. Outro ministro vê de modo distinto: a proximidade notória entre Kassio e Ciro não seria, forçosamente, uma amizade íntima.
Na sabatina de Kassio, Ciro disse: “A sua indicação nos enche de esperança para o futuro”.

