A Polícia Federal baseia a suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme Dark Horse em três elementos: um contrato de 24 milhões de dólares encontrado no celular do banqueiro Daniel Vorcaro; um rastro bancário que confere com esse contrato quase centavo a centavo; e um fundo nos Estados Unidos sem atividade real, reativado no momento exato de receber o dinheiro. É sobre essa reconstrução que se apoia a suspeita contra o senador e candidato à Presidência do PL, Flávio Bolsonaro. 

Em maio, o Intercept Brasil revelou que Flávio pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Vorcaro pagou cerca de 69 milhões de reais.

O ponto de partida da investigação é um contrato encontrado no celular de Vorcaro, chamado internamente de “Capitão do Povo”, nome de trabalho do projeto antes de se chamar Dark Horse. O documento foi enviado a Vorcaro em 18 de dezembro de 2024, por Thiago Miranda Silva, fundador e ex-sócio do Portal Leo Dias, mais de um ano antes de qualquer notícia pública sobre o financiamento da obra. Prevê investimento de 24 milhões de dólares em 14 parcelas, assinado pela GoUp Entertainment LLC, representada por Karina Ferreira da Gama e por um segundo nome que não havia sido publicado até agora, Michael Brian Davis.

Um plano de negócios anexo ao contrato divide o investimento em cotas de 500 mil dólares. O grupo de Vorcaro, identificado no documento como “Investidor 3”, é responsável por 48 das 50 cotas disponíveis, o equivalente a quase a totalidade dos 24 milhões de dólares.

Para a PF, o que transforma esse contrato em objeto de investigação criminal é a constatação de que o dinheiro efetivamente circulou, e o valor confere com o que o papel previa. Entre fevereiro e setembro de 2025, a Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, fez sete remessas ao Havengate Development Fund LP, no Texas, somando 12,3 milhões de dólares. As datas das remessas, a partir dos documentos do inquérito, seguem o cronograma do contrato assinado por Karina: 13 de fevereiro, 24 de março (duas remessas no mesmo dia), 25 de abril (também duas), 29 de maio e 16 de setembro.

O histórico do Havengate é, segundo os investigadores, o elemento mais forte da suspeita de lavagem, e ainda não havia sido detalhado publicamente. O fundo não nasceu para financiar cinema. Foi criado em 2020 para um empreendimento imobiliário no Texas, orçado em 21,1 milhões de dólares e vendido a investidores, inclusive brasileiros, como porta de entrada para o visto de residência permanente americano EB-5. 

O empreendimento nunca saiu do papel: não há registro de alvará de construção em nome do fundo e a construtora indicada no material publicitário confirmou que o projeto foi interrompido antes de qualquer obra começar. Em 2021, a gestora do fundo cancelou seu registro como gestora regulada de investimentos, tanto no Texas quanto na Flórida.

O Havengate ficou sem atividade real por quase quatro anos, até 13 de fevereiro de 2025, quando recebeu a primeira remessa vinda do Brasil, coincidindo com o início do cronograma de pagamentos do filme. Um fundo dormente reativado no exato momento em que precisava existir para receber dinheiro do exterior é, para investigadores de lavagem, um padrão que costuma pesar mais do que qualquer mensagem de celular.

À frente do Havengate estão Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, e Altieres Santana, corretor de imóveis americano. As entidades do fundo e a gestora dos dois, a Calixsan Capital Management, dividem um endereço em Dallas.

Do lado brasileiro, a relação entre Vorcaro e Flávio aparece nos autos com uma cronologia mais completa do que a divulgada até aqui. Os primeiros contatos são de dezembro de 2024, quando Thiago Miranda articula um encontro entre os dois avisando que o assunto seria “o filme do presidente”. Em fevereiro de 2025, Vorcaro orienta que o pagamento seja feito “via entre”, referência à Entre Investimentos, de Mineiro. 

O primeiro contato direto entre Vorcaro e Flávio, segundo os documentos, aparece só em agosto de 2025: “21 pode ser”, escreve um; “a caminho”, responde o outro. Em outubro, com as filmagens em curso, Flávio avisa que a produção está no limite e que buscaria outro caminho se Vorcaro não pagasse. Em novembro de 2025, dias antes de Vorcaro ser preso tentando embarcar num jato particular, Flávio manda um vídeo de agradecimento. Na véspera da prisão, no dia 17, escreve a última mensagem entre os dois: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”

Eduardo Bolsonaro aparece de forma mais indireta, numa mensagem repassada por Thiago Miranda em março de 2025 com orientação sobre como movimentar os recursos dentro dos Estados Unidos. É o elo mais próximo que a apuração estabelece entre ele e a estrutura financeira do filme. Uma tentativa de ligar o financiamento à atuação internacional de Eduardo não avançou: tanto o ministro André Mendonça quanto a Procuradoria-Geral da República entenderam que essa conexão não havia sido demonstrada.

Depois que a história foi revelada, sob pressão, Flávio Bolsonaro disse que seria feita uma auditoria nas contas da produção. O resultado nunca foi divulgado. A produtora do filme encomendou uma perícia contábil privada, que apurou custo real de produção de 75,2 milhões de reais, bem abaixo dos 134 milhões citados na investigação. O laudo, porém, responde a uma pergunta diferente da que motiva o inquérito: mostra para onde foi o dinheiro, não de onde veio o dinheiro que a PF suspeita ter passado pelo Havengate.

Uma segunda frente de suspeita, distinta do financiamento privado, envolve dinheiro público. O deputado Mário Frias, do PL, destinou 2 milhões de reais em uma emenda parlamentar ao Instituto Conhecer Brasil, organização de Karina Ferreira da Gama, da GoUp, e que também mantém contrato de 108 milhões de reais com a Prefeitura de São Paulo para o programa Wi-Fi Livre SP. É esse contrato que sustenta a hipótese de que dinheiro público tenha sido usado para bancar despesas do filme, linha de apuração que já levou a uma operação de busca e apreensão contra Frias.

Ao longo de todo o processo, a Procuradoria-Geral da República se manifestou quatro vezes – em três delas agiu para conter iniciativas de terceiros, incluindo o pedido de um deputado para prender Flávio Bolsonaro preventivamente e bloquear seus bens. A única iniciativa própria da PGR, ainda não divulgada, foi pedir à PF um levantamento de todas as proposições legislativas apresentadas ou endossadas por Flávio e por Frias que pudessem interessar ao Banco Master ou a Vorcaro. Em essência, a PGR faz uma checagem sobre eventual contrapartida do mandato parlamentar em troca do financiamento de Vorcaro. Segundo os documentos, essa diligência segue sem resposta.

Até a homologação da delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, o que sustentava a investigação eram as mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Freixo confirmou, em depoimento formal à PGR, ter feito as remessas ao Havengate a pedido de Vorcaro e relatou entregas de dinheiro em espécie. Mas disse desconhecer o destino final dos recursos que movimentava.

Nenhum juízo, seja no âmbito federal, seja nas ações em São Paulo sobre o Wi-Fi, declarou até agora prova conclusiva de crime consumado. O relatório técnico da Polícia Federal se descreve como análise de caráter não exauriente.