Primeiro réu a ser interrogado nesta terça-feira (10), na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, o ex-comandante da Marinha almirante Almir Garnier negou qualquer participação em tratativas para um golpe de Estado e rejeitou ter colocado tropas à disposição do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.

“Nunca usei essa expressão. Nunca disponibilizei tropas para ações dessa natureza”, respondeu ao ministro Alexandre de Moraes. Foi a primeira vez que Garnier falou sobre o caso. Durante o inquérito, ele ficou em silêncio.

O almirante rechaçou as acusações como “ilações” e tentou se desvencilhar dos depoimentos de seus colegas de farda.

Os generais Marco Antônio Freire Gomes (Exército) e Carlos Baptista Júnior (Aeronáutica) disseram em depoimentos anteriores que Garnier foi favorável às iniciativas golpistas discutidas com Bolsonaro em reuniões no Palácio do Alvorada, em dezembro de 2022. Segundo ambos, Garnier foi um dos que apoiaram as ideias ventiladas por Bolsonaro à época.

Sobre os encontros no Alvorada e no Ministério da Defesa, Garnier minimizou a gravidade das conversas. Disse que eram “análises de possibilidades” diante da tensão pós-eleitoral. Segundo ele, foram discutidos os acampamentos bolsonaristas e hipóteses sobre GLO (Garantia da Lei e da Ordem), mas jamais se falou em prisão de autoridades ou decretação de estado de sítio.

“Não vi minuta, vi uma apresentação em tela. Quando o senhor fala em minuta, penso em papel. Eu não recebi esse tipo de documento”, afirmou, ao comentar a suposta apresentação de um decreto golpista. Garnier também se esquivou da reunião no Ministério da Defesa, em 14 de dezembro, dizendo que chegou atrasado e que, ao entrar, o encontro já havia terminado.

Garnier se disse leal ao seu comandante supremo, mas ressaltou que nunca recebeu ordens manifestamente ilegais. “O estatuto dos militares não faculta ao militar ficar inventando, tendo ilações ou criticando o que está na cabeça de outrem”, afirmou, em tom defensivo.

O interrogatório dos réus começou ontem (9), com o depoimento do delator Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, e pelo ex-chefe da Abin, o deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro, Alexandre Ramagem.