Em menos de 20 dias, três dirigentes da Amprev conduziram o órgão a aplicar cerca de 400 milhões de reais das aposentadorias dos funcionários públicos do Amapá em Letras Financeiras do Banco Master. Fizeram isso em julho de 2024, quando o mercado sabia que o banco tinha problemas e mesmo após alertas técnicos registrados em atas. As decisões são investigadas pela Polícia Federal, que apura suspeita de gestão temerária ou fraudulenta do dinheiro.

As decisões ocorreram em três reuniões extraordinárias realizadas nos dias 12, 19 e 30 de julho de 2024. Documentos da investigação de mais de 400 páginas, obtidos pelo Bastidor, mostram que os dirigentes da Amprev foram alertados dos riscos. As atas das reuniões registram alertas técnicos e referências a “ruído de mercado” envolvendo o banco, além de menção a “procedimentos” do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal em relação ao Master. Consta ainda uma notícia de que a Caixa recusou ativos semelhantes por considerá-los de alto risco.

Mesmo assim, Jocildo Silva Lemos, então diretor-presidente da Amprev, José Milton Afonso Gonçalves e Jackson Rubens de Oliveira, integrantes do Comitê de Investimentos do órgão aprovaram rapidamente e fizeram aportes no Master. Jocildo chegou ao cargo por indicação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, influente no governo do Amapá.

Na primeira reunião foi aprovada a aplicação de 200 milhões de reais em Letras Financeiras do Banco Master, que pagavam o IPCA mais juros de 8,35% ao ano. Na segunda, mesmo diante de alertas registrados em ata, foi deliberado novo aporte de 100 milhões de reais. Na terceira reunião, mais 100 milhões de reais foram autorizados. O total chegou a 400 milhões em menos de 20 dias, com forte concentração em um único emissor.

Segundo a PF, Jocildo Lemos é a figura central, responsável por conduzir as reuniões, orientar os encaminhamentos de votação e, posteriormente, assinar as ordens de transferência. José Milton foi o principal defensor das aplicações no Master. Ele apresentou as propostas e sustentou a escolha com base na rentabilidade superior, mesmo diante de questionamentos técnicos. Jackson Rubens aparece como integrante da maioria que aprovou as operações, com votos favoráveis nas reuniões registradas em ata, mesmo após a menção a alertas e “ruído de mercado”.

Nas deliberações, o comitê da Amprev optou por concentrar os aportes no Master, em detrimento de propostas de bancos maiores, como Santander, BTG Pactual e Safra. A investigação aponta que a rentabilidade superior oferecida pelo Master foi o principal argumento favorável às aplicações. Também foi usada como justificativa a elegibilidade formal da instituição segundo normas do Conselho Monetário Nacional.

Nesta quarta-feira (11), Jocildo Lemos pediu exoneração do cargo. Saiu seis depois da operação da PF que cumpriu mandatos de busca e apreensão contra ele, José Milton e Jackson. Na decisão que autorizou as medidas cautelares, o juiz federal Jucélio Fleury Neto, titular da 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Amapá, afirmou haver lastro de materialidade e indícios de autoria suficientes para justificar a operação.

A PF sustenta que houve gestão temerária ou fraudulenta. Investiga ainda indícios de possível lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos ou valores.