Em meio à maior crise na América Latina em décadas, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) tem dificuldades para manter o governo informado sobre o que acontece na Venezuela, que sofreu um ataque dos Estados Unidos no sábado (3). A agência não possui um adido — espécie de representante do órgão- no país há quase quatro anos. Em 2020, durante o governo Bolsonaro, a embaixada foi fechada; quando foi reaberta por Lula (PT), em 2023, a agência não enviou uma delegação.

Com cerca de 2.200 quilômetros de fronteira terrestre com o Brasil, há anos a Venezuela é um dos vizinhos mais problemáticos, devido ao tráfico de drogas e ao fluxo de refugiados da fome.

Segundo integrantes da Abin com atuação internacional ouvidos pelo Bastidor, a ausência de um adido em território venezuelano afeta a coleta de informações confiáveis e torna mais complexa a tarefa de elaborar cenários na crise instalada após a captura do ditador Nicolas Maduro. A agência vive um sucateamento no governo Lula (PT), com redução de orçamento desde as operações da Polícia Federal da investigação chamada de “Abin paralela”.

Diante do cenário com a prisão de Maduro, a atuação de grupos armados e a constante entrada de imigrantes via Pacaraima, em Roraima, a função Abin é essencial para tomada de decisões do presidente Lula (PT), inclusive, para declarações públicas e movimentações diplomáticas. Mas, na prática, o que é produzido são só relatórios de inteligência que não costumam nortear as decisões da diplomacia brasileira.

Pessoas que acompanharam a produção dos relatórios afirmaram ao Bastidor, sob condição de anonimato, que os relatórios relacionados à crise na Venezuela elaborados pela Diretoria de Inteligência Externa da Abin, a DIEx, consistem em um conjunto de notícias, relatos de imigrantes e de líderes de grupos sociais nas fronteiras e análises geopolíticas. A atividade de inteligência clássica exigiria mais mecanismos, como agentes no território estrangeiro, uma rede de informantes locais e monitoramento de instalações críticas.

Por outro lado, a Polícia Federal mantém adidos na embaixada do Brasil na Venezuela que alimentam de informações a cúpula da corporação em Brasília. O trabalho é feito com a recém-criada Coordenação-Geral de Fronteiras, a CGFron, que monitora a entrada de venezuelanos no Brasil. Junto da PF, a Inteligência do Exército atua na fronteira de Roraima.

Em nota enviada ao Bastidor, a Abin disse que após reabertura da embaixada na Venezuela, em 2023, ainda não foi possível reabrir sua adidância. Clique aqui para ler a íntegra.

Procurada, a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, responsável por fiscalizar a Abin, não quis se manifestar.