O Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (28) a segunda fase da operação Carbono Oculto, nove meses depois da primeira —considerada a maior ação contra a infiltração do PCC no mercado de combustíveis do país. Foram expedidos 59 mandados de busca e apreensão em endereços de São Paulo, Paraná, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
A nova fase, batizada de Fluxo Oculto, tem três frentes simultâneas: seis fintechs suspeitas de lavagem de dinheiro, um grupo de empresas acusado de adulterar combustíveis com nafta desviada e fundos de investimento usados para fechar o ciclo da lavagem e retornar para os operadores.
As investigações miram empresários e empresas próximas de Mohamad Hussein Mourad, dono da Copape, e Roberto Augusto Leme, o Beto Louco. Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado e a última informação é que estavam na Líbia. O MP-SP, o Gaeco de Piracicaba e a Procuradoria-Geral da Pública rejeitaram propostas de delação premiada apresentadas pelas defesas dos dois por insuficiência de provas.
Os promotores e auditores fiscais identificaram seis fintechs que movimentaram 26 bilhões de reais ligados ao esquema nos últimos quatro anos: BK Bank, Ceopag, Vpay, Sispay, Yaw e Smart Solutions Group. Elas funcionavam como bancos da organização, fazendo a compensação entre distribuidoras e postos de combustíveis, operações entre as empresas de fachada e fundos de investimento do grupo.
Todas as fintechs atuavam no modelo de contas bolsão, pelo qual dinheiro de origem diversa é misturado para dificultar a identificação. No total, relatórios da Receita Federal identificaram movimentações atípicas de 3,8 bilhões de reais das instituições de pagamento.
De acordo com o Ministério Público, um dos indícios de ligação do esquema dos combustíveis com atividades do PCC aparece nas atividades da Yaw. A fintech movimentou recursos da Shelby Holdings, empresa vinculada a Ricardo Romano, investigado como um dos responsáveis pela lavagem de dinheiro da organização. Outra fintech vinculada a atividades do PCC é o BK Bank.
Paralelo à lavagem pelas fintechs, o esquema de adulteração de combustíveis funcionava assim: produtoras e importadoras de solventes emitiam notas fiscais falsas registrando a venda de nafta para empresas químicas de fachada. O produto nunca chegava a essas empresas. Os caminhões descarregavam a nafta diretamente em distribuidoras controladas por Mourad e Beto Louco. Foram mais de 135 milhões de litros desviados em pouco mais de dois anos, por meio de ao menos 10 mil notas fiscais falsas que totalizam mais de 1 bilhão de reais.
Para fechar o ciclo e devolver o dinheiro de forma aparentemente limpa às produtoras, o esquema usou três fundos de investimento em direitos creditórios não padronizados — Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global. As empresas de fachada emitiam boletos pagos por esses fundos. Os boletos eram emitidos sem descontos e com prazo de pagamento de até um dia. Segundo os investigadores, o prazo curto para pagamento indica que as transações eram fictícias.
Na ponta dos beneficiários dos fundos, a investigação aponta para Guilherme Ali de Paula, dono da PixCard. O MP o descreve como cofundador do grupo Brazil Special Opportunities, o BSO, que opera por meio do fundo Zeus. Maurício Ali de Paula, pai de Guilherme, é apontado como coordenador financeiro da Amapapetro, uma das maiores empresas de fachada usadas para dar suporte ao grupo de Mourad. Como mostrou o Bastidor, Maurício tem proximidade com Antonio Rueda, presidente do União Brasil.
A defesa de Guilherme Ali de Paula afirma que os fundos FIDC-NP e Atena FIP, investigados na Fluxo Oculto, são geridos observando “rigorosamente os parâmetros regulatórios” da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O Bastidor busca as defesas de outros alvos da operação.
Leia a íntegra da nota da defesa de Guilherme Ali de Paula:

