O superintendente de Registro de Valores Mobiliários da CVM, Luis Miguel Sono, consta como participante de uma audiência reservada com advogados dos fundos que questionam a obrigatoriedade de uma oferta pública de aquisição de ações da Oncoclínicas no mesmo dia em que a área dele se posicionou contra recurso dos minoritários que exigem a OPA. A reunião ocorreu em 11 de maio.

O encontro está registrado no sistema de agendas públicas da CGU, assim como a lista de participantes. Questionada pelo Bastidor, a autarquia afirmou que Sono, na verdade, não participou da reunião – e que retificaria os registros na CGU. A área de Sono também assegura que o parecer contrário aos minoritários, assinado no mesmo dia da reunião, foi apenas uma coincidência.

O encontro é contestado pelos minoritários em documentos encaminhados à Corregedoria da CVM, à Controladoria-Geral da União e ao Tribunal de Contas da União. Eles alegam que a audiência foi realizada com apenas uma das partes, enquanto eles próprios jamais foram recebidos pela área técnica e estavam com o acesso aos autos bloqueado.

A audiência está registrada nos portais de transparência do governo. Participaram quatro sócios do Mattos Filho e Gonzalez. Pela CVM, o registro indica também a presença do gerente Raul de Campos Cordeiro e do inspetor Gustavo Luchese Unfer, além do próprio Sono.

A assessoria da CVM afirmou ao Bastidor na sexta-feira (19) que a Corregedoria instaurou processo administrativo para apurar o caso. Não esclareceu, contudo, se a audiência gerou ata nem se os minoritários foram comunicados do encontro. A autarquia reiterou apenas que Sono não estava presente e que o registro no e-Agendas será corrigido. Não explicou por que o nome do superintendente constava no sistema.

A disputa na CVM envolve a saída do Goldman Sachs do capital da Oncoclínicas. Quando o banco americano deixou a companhia, os recursos migraram para os fundos Centaurus e Josephina III, geridos pela Centaurus Capital. O movimento fez a gestora ultrapassar o limite de 15% do capital da Oncoclínicas previsto no estatuto social, o que, segundo os minoritários, obriga a realização de uma oferta pública de aquisição de ações.

A OPA garante aos demais acionistas o direito de vender suas ações pelo mesmo preço pago pelo novo controlador. Os fundos contestam a obrigatoriedade e são representados na CVM pelo escritório Mattos Filho e pelo ex-diretor da autarquia Gustavo Gonzalez. O caso tramita há mais de 13 meses sem decisão de mérito.

Para atuar em seu favor, os fundos contrataram cinco ex-dirigentes da CVM. Três deles foram apontados pelo TCU como elementos de risco de conflito de interesses na autarquia.

Otavio Yazbek, um dos contratados, foi flagrado em mensagens divulgadas pela revista Veja se oferecendo à sócia do escritório Mattos Filho, Maria Abreu Guido, para acionar pessoalmente o ministro-chefe da CGU, Vinicius Marques de Carvalho. O contato foi oferecido quando os minoritários haviam levado reclamações sobre a condução do caso à CGU.

No mesmo dia da audiência, a área técnica assinou o Ofício Interno 52, sugerindo não conhecer o recurso dos minoritários. A CVM nega qualquer relação entre os dois atos.

O patrimônio de Sono

Os problemas de transparência do superintendente Sono envolvem também o patrimônio dele. Ele não quis explicar ao Bastidor a origem e a evolução de seus bens. O superintendente tem apartamento no Leblon e uma casa em Armação dos Búzios, em Manguinhos.

Os dois imóveis constam de Certidão de Dívida Ativa emitida pelo município do Rio de Janeiro em 22 de janeiro de 2026, com débitos de IPTU e coleta de lixo acumulados desde 2021, totalizando 8 mil reais. A reportagem questionou se a remuneração do cargo é compatível com a aquisição e manutenção dos imóveis e se a CVM adota procedimento periódico de verificação de evolução patrimonial de servidores em posições sensíveis.

A autarquia não respondeu às perguntas. Disse apenas que seus servidores estão sujeitos às obrigações de declaração de bens previstas na legislação federal e que adota mecanismos adicionais de controle previstos na Portaria CVM 71, de 2022, sobre negociações com valores mobiliários realizadas por profissionais e seus dependentes.

O escritório Mattos Filho não respondeu se a sócia Maria Abreu Guido permanece atuando no caso após o episódio com Yazbek e se instaurou procedimento interno de compliance para apurar a oferta de acionar o ministro da CGU.