Em 2022, quando o empresário Flávio Pentagna Guimarães morreu, aos 94 anos, a família dele já se intitulava uma das bases do sistema financeiro de Minas Gerais. É uma base repleta de confusões jurídicas, que ganhou mais um capítulo nesta quarta-feira (28), com a deflagração da operação Concierge, pela Polícia Federal.

Os investigadores apuram o uso de bancos tradicionais para a circulação de dinheiro de facções criminosas, empresas com dívidas tributárias e outras encrencas jurídicas, por meio das chamadas contas balão. Por elas, dois bancos digitais operavam os recursos sem a devida fiscalização das autoridades, permitindo que as operações, por vezes ilegais, pudessem ocorrer sem obstáculos.

Um dos bancos usados para a movimentação das contas balão era o BS2. A fintech, atualmente especializada no atendimento a pessoas jurídicas, nasceu de um reposicionamento de marca do antigo Banco Bonsucesso que, assim como o irmão mais velho, o BMG, era focado principalmente em empréstimos consignados a funcionários públicos, aposentados e pensionistas, além de crédito pessoal.

Segundo as investigações, o BS2 e o Banco Rendimento, também envolvido na operação, deixaram de informar ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) as movimentações suspeitas mantidas pelas fintechs T10 Bank e Inovepay, donas das contas balão.

O antigo Banco Bonsucesso foi, por diversas vezes, apontado como uma instituição voltada para a lavagem de dinheiro em casos de corrupção. A Receita Federal chegou a listar o banco dos Pentagna Guimarães como um dos que emprestaram dinheiro ao Banco Schahin, que movimentou propinas em contratos com a Petrobras.

Em 2019, a instituição também foi alvo de investigação, por supostos abusos na oferta de crédito consignado a aposentados. No ano seguinte, as operações da instituição geraram prejuízo aos acionistas. Tudo mudou em 2023, quando o foco virou para o atendimento a pessoas jurídicas, o que fez o banco encerrar com lucro líquido de 85 milhões de reais.

O BS2 também se envolveu com o esporte. Assim como o BMG, que estampou as camisas de diversos clubes do país, o BS2 iniciou a trajetória em busca de clientes patrocinando o Flamengo, em um contrato avaliado em 15 milhões de reais.

O próprio BMG – que foi fundado pelos Pentagna Guimarães, passou por diversos controladores e voltou ao portfólio da família – também já se envolveu em escândalos de corrupção. A instituição foi apontada como uma das que realizava empréstimos fictícios para o pagamento de propinas do mensalão. O ex-CEO do banco Ricardo Guimarães chegou a ser condenado a sete anos de prisão por participar do esquema.

A participação efetiva do BS2 e do Rendimento na fraude das fintechs T10 Bank e Inovepay ainda não foi completamente esclarecida pela Polícia Federal. Em nota, o BS2 disse que está colaborando com a Receita Federal e com os policiais, fornecendo as informações do cliente investigado.

“Estamos prestando todos os esclarecimentos demandados pelas autoridades competentes e reafirmamos nossa atuação em conformidade com a regulamentação vigente”, afirmou o banco em nota.