Após as duas indicações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na semana passada, superintendentes da autarquia divulgaram nesta quarta-feira (14) uma nota em que defendem que a vaga remanescente seja preenchida por um servidor de carreira.

A manifestação ocorre depois da escolha do ex-diretor da CVM Otto Lobo para a presidência e do advogado Igor Muniz para uma das diretorias, nomes vistos por agentes do mercado como indicações políticas. Agora, os superintendentes sustentam que a última cadeira deve ficar com um quadro técnico da instituição.

O documento, assinado por 18 superintendentes e pelo corregedor da CVM, afirma que a presença de um servidor no colegiado é fundamental para garantir a continuidade institucional, preservar a memória regulatória e assegurar o pleno entendimento das rotinas de supervisão e fiscalização da autarquia.

Apesar da pressão interna, a indicação segue em aberto e há outros interessados na vaga. O Ministério da Fazenda, que ficou fora das escolhas de Lobo e Muniz, pode tentar emplacar um nome próprio. Entre os cotados estão os advogados André Pitta e Ferdinando Lunardi.

Outro nome que circula é o do diretor de Relações com Investidores da Fictor Alimentos, André Vasconcellos. Em conversa com o Bastidor, ele afirmou que tem atuado em Brasília e na Faria Lima para viabilizar sua indicação e que as articulações continuam, mesmo durante o recesso parlamentar.

“Minhas credenciais e meu currículo chegaram ao Ministério da Fazenda por diversos interlocutores – do Legislativo, do Executivo, do PT e do mercado. Ainda não tive uma conversa direta com o ministro Fernando Haddad, mas já houve essa apresentação por terceiros”.

A ligação de Vasconcellos com o grupo Fictor, no entanto, tem gerado questionamentos. Em novembro, a Fictor Holding Financeira apresentou uma proposta para a compra do Banco Master. À época, o grupo afirmou que pretendia adquirir a instituição de Daniel Vorcaro por meio de um consórcio com investidores dos Emirados Árabes Unidos.

Como mostrou o Bastidor, o Banco Central não analisou a proposta e decidiu pela liquidação do Master. Documentos obtidos pela reportagem revelam indícios de que o BC agiu de modo irregular e coordenado, sem amparo legal, ações com o juiz federal de Brasília que autorizou a Operação Compliance Zero.

Vasconcellos nega vínculo com a holding financeira da Fictor e afirma que nunca participou de negociações ou operações envolvendo o Master. Segundo ele, caso seja empossado na CVM, pretende registrar em cartório seu impedimento para analisar processos relacionados a empresas com as quais teve relação direta ou indireta, incluindo casos do Master.