Mensagens interceptadas pela Polícia Federal no celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca e apontada como operadora do orçamento secreto na Câmara, revelam que ela e a advogada Valéria Rodrigues Linhares, esposa do deputado federal Cezinha de Madureira, operavam esquema de venda de influência em tribunais superiores, incluindo o Supremo Tribunal Federal, segundo aponta a PF. Madureira foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta segunda-feira (14).

Na decisão, o ministro Flávio Dino, do STF, afirma que o grupo atuava de forma organizada. Tuca era responsável por captar clientes e formatar memoriais dos processos; Valéria revisava as informações, repassava atualizações sobre os casos e assinava os contratos de prestação de serviço; Cezinha Madureira, por sua vez, fazia o contato pessoal e direto com as autoridades.

Fialek, a Tuca, foi assessora de Arthur Lira durante seus dois mandatos na Presidência da Câmara e era considerada uma espécie de coordenadora do orçamento secreto, que permite aos congressistas distribuir emendas sem qualquer medida de transparência. Em dezembro do ano passado, Tuca foi alvo de uma operação de busca e apreensão da PF, numa investigação sobre suspeitas de desvio de dinheiro público a partir de emendas parlamentares. Nas investigações, ela é tratada como operadora do orçamento secreto.

A operação desta segunda-feira é fruto do que a perícia da PF descobriu no telefone celular de Tuca. Foram encontrados diálogos entre Tuca e Valéria, esposa do deputado Cezinha de Madureira, do PL, que levaram à suspeita sobre ao menos três processos que tramitam no Supremo, discutidos pelo grupo em mensagens.

Em 25 de agosto deste ano, a Polícia Federal apreendeu 510 mil reais em espécie encontrados em uma mala no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, quando ela embarcava para Brasília. A advogada alegou que o dinheiro vinha de honorários. O pagamento coincide com um dos episódios tratados nos diálogos entre as duas.

Na decisão, o ministro Flávio Dino afirma que essa é exatamente a modalidade de recebimento prevista nos contratos das três reclamações, o que serviu de fundamento para a investigação sobre a apreensão do dinheiro ficar a cargo do STF.

Um dos casos citados pela Polícia Federal é uma reclamação movida por Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo, preso em fevereiro de 2025 em operação da Polícia Federal que apura desvio de recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb, e do Programa Nacional de Alimentação Escolar, o Pnae. O relator do caso no STF é o ministro Nunes Marques.

Em 16 de julho de 2025, Tuca encaminhou a Valéria um contrato de prestação de serviços advocatícios entre o escritório Igor Rodrigues Advogados Associados e o escritório de Valéria. Uma das cláusulas previa o pagamento de 1 milhão de reais em honorários. No mesmo dia, foi enviado também um aditivo ao contrato entre o escritório Igor Rodrigues Advogados Associados e o próprio Denis de Souza Macedo, com pagamento adicional de 2 milhões de reais caso o ex-secretário fosse solto mesmo sob medidas cautelares, com prazo de dez dias para quitação após o resultado. Na ocasião, Valéria respondeu a Tuca: “Está razoável? Assino?”

Em 5 de agosto, Fialek escreveu a frase “Cezinha e tem o do Rio”, que a PF associa à reclamação de Denis. Duas semanas depois, em 21 de agosto, o gabinete de Nunes Marques enviou resposta protocolar no processo para defesa do ex-secretário. Em 28 de agosto, Madureira pediu a Fialek que lhe reenviasse “o print do pedido de agenda”, o que investigadores avaliam como sinal de que a condução do caso seguia até pouco depois da apreensão do dinheiro em espécie. Na decisão, Dino afasta a possibilidade de que Nunes Marques tivesse qualquer conhecimento do esquema.

Um outro caso citado pela Polícia Federal é uma reclamação movida por Michele Cariello de Sá Queiroz Rocha, prefeita de Beberibe, no Ceará, sob relatoria de Nunes Marques, para anular investigação conduzida pelo Ministério Público do Ceará contra ela. Um dia depois do protocolo, Fialek enviou a peça ao deputado. Nas semanas seguintes, Valéria e Tuca trocaram mensagens sobre um contrato, coordenado por Tuca, entre os escritórios Daniel Menezes Advocacia e Fialek Advocacia, que previa pagamento de 500 mil reais após o julgamento da reclamação.

O Bastidor tenta contato com as defesas de Mariângela Fialek e Valéria Linhares. Em nota, a defesa do deputado Cezinha de Madureira afirma que ele “está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários”.