Os documentos do caso Master que perderam o sigilo nesta semana no Supremo Tribunal Federal (STF) dão contornos mais precisos a uma das linhas mais delicadas da investigação, sobre dois graduados servidores do Banco Central que trabalhavam como infiltrados do banqueiro Daniel Vorcaro sob pagamento de propina.
Os relatórios da Polícia Federal descrevem Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana como consultores informais de Vorcaro. Segundo a PF, eles repassavam informações internas de caráter sensível, algumas delas sigilosas, a Vorcaro; orientavam estratégias; revisavam minutas de documentos que o Banco Master enviaria ao Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Na conclusão de um dos relatórios, a PF afirma que a dupla atuou de forma recorrente na defesa e na promoção de interesses privados de Vorcaro, extrapolando os limites das próprias funções.
Paulo Sérgio Souza e Belline Santana foram afastados de suas funções em janeiro deste ano, na esteira de uma sindicância interna. Em 4 de março, na terceira fase da Operação Compliance Zero, o ministro André Mendonça determinou o afastamento formal e a imposição de tornozeleira eletrônica aos dois. Em julho, o magistrado autorizou o compartilhamento das provas com a Controladoria-Geral da União para a abertura de processos administrativos disciplinares contra ambos.
Paulo Sérgio Neves de Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central, com cadeira na diretoria colegiada e mandato fixo encerrado em fevereiro de 2023. Depois de deixar o cargo, ele assumiu a chefia adjunta do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), área responsável por acompanhar capital, liquidez e gestão das instituições financeiras. É nesse posto que ele aparece nos episódios mais recentes descritos pela PF. Belline Santana é auditor de carreira do BC e chefiava o Desup.
A relação de Paulo Sérgio com o caso começa antes do Master existir com esse nome. Coube a ele, como diretor de Fiscalização, assinar e recomendar à cúpula do Banco Central a autorização para a transferência do então Banco Máxima a Daniel Vorcaro, em 2019.
Entre 2022 e 2023, segundo a auditoria aberta pela Controladoria-Geral da União, Paulo Sérgio esteve encarregado de verificar carteiras de crédito de empresas e fundos ligados ao banco de Vorcaro. Não apontou irregularidades. O período sob apuração da CGU vai de 2019 a 2023. Em 2021, quando ocupava a diretoria, Paulo Sérgio vendeu uma fazenda de café por R$ 3 milhões a um fundo de investimentos ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
Os documentos liberados detalham uma rotina de assessoria prestada de dentro da autarquia. Segundo a PF, Paulo Sérgio antecipava posicionamentos internos do Banco Central e orientava Vorcaro sobre os argumentos que deveria apresentar em reuniões com diretores e com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em abril de 2025, Paulo Sérgio revisou a minuta de um ofício que o Banco Master enviaria ao Desup, o departamento em que trabalhava, em resposta a uma cobrança sobre indicadores de liquidez. Recebeu o texto e devolveu sugestões de alteração.
O relatório aponta ainda que Paulo Sérgio atuou na revisão de documentos destinados ao Fundo Garantidor de Crédito, intermediou possíveis interessados na compra do Letsbank, mencionando Daniel Wainstein e o Nubank como potenciais compradores, e tentou alterar normas de enquadramento de entidades que atuam junto à Superintendência Nacional de Previdência Complementar, a Previc.
Belline Santana também aparece revisando minutas e discutindo estratégias com o banqueiro. Em abril de 2025, recebeu de Vorcaro uma minuta relacionada à reorganização societária que envolveria o Master e o BRB, fez observações e informou que consultaria internamente a viabilidade da proposta. Em outra troca, avaliou uma minuta de resposta do Master ao FGC e respondeu que o texto estava bom. Seu contato com Vorcaro, segundo a PF, remonta a novembro de 2023, quando trataram de temas ligados à Comissão de Valores Mobiliários.
Em outubro de 2025, um mês antes da liquidação, Belline criou um grupo de mensagens chamado “Master”, reunindo a si próprio, Vorcaro e Paulo Sérgio. Para a PF, o canal servia para revisar documentos, alinhar estratégias e discutir decisões internas do Banco Central que afetavam os interesses do banqueiro.
Paulo Sérgio e Belline foram pagos pelos serviços prestados a Vorcaro. A investigação aponta ao menos dois conjuntos de benefícios aos servidores do BC.
O mais volumoso envolve Belline Santana. A Varajo Consultoria, empresa do advogado Leonardo Palhares, sócio de Vorcaro e alvo da Operação Compliance Zero, pagou R$ 3,81 milhões em 14 depósitos ao servidor e a uma empresa ligada a ele, a Inspiração Projetos Educacionais, entre outubro de 2023 e dezembro de 2025. A tabela com o calendário dos pagamentos foi entregue ao STF pela defesa de Palhares, a pedido do ministro André Mendonça, em petição de 23 de junho. Para a Procuradoria-Geral da República, trata-se de contrato simulado, estruturado com participação de Fabiano Zettel, para formalizar vínculo fictício com o servidor.
O calendário tem duas fases: seis parcelas de R$ 500 mil entre outubro de 2023 e outubro de 2024, e depois parcelas mensais de R$ 100 mil a R$ 105 mil a partir de maio de 2025. O último depósito é de 3 de dezembro de 2025, duas semanas depois de o Banco Central liquidar o Master e de a PF deflagrar a primeira fase da operação.
Em outra frente, os relatórios registram mensagens que mencionam o valor de R$ 760 mil relacionado a Belline, com Zettel avisando Vorcaro sobre datas de repasses. Em outubro de 2024, segundo a PF, Zettel explicou que parte de um valor enviado a Leonardo Palhares seria destinada ao servidor. O dinheiro passava por outras empresas antes de chegar ao destinatário final.
Há também vantagens não financeiras. A PF aponta que Vorcaro custeou parte de uma viagem de Belline e da mulher a Paris, e uma viagem de Paulo Sérgio e da família à Disney, nos Estados Unidos.
Na semana passada, a PF intimou Roberto Campos Neto, o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o dono do BTG Pactual, André Esteves, a prestar depoimento, depois de os três serem mencionados por Paulo Sérgio em seu próprio interrogatório. Em depoimento, o ex-diretor negou ter recebido propina de Vorcaro e relatou conversas internas sobre a situação financeira do Master e sobre a possível venda ao BRB.
O material que expôs esses detalhes veio a público na esteira da crise institucional aberta no Supremo. Na quinta-feira (10), o presidente da Corte, Edson Fachin, determinou que Mendonça retirasse o sigilo dos procedimentos relacionados ao Banco Master e entregasse o conjunto do material aos demais ministros. O relator cumpriu a determinação e liberou o sigilo de 15 procedimentos, preservando apenas o que possa comprometer diligências em andamento. O plenário se reúne em sessão extraordinária na terça-feira (15) para tratar do caso.